
A captura de Nicolás Maduro após a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, neste sábado (3), reacendeu o debate internacional sobre os fatores que levaram ao colapso do regime chavista. Embora a ação norte-americana tenha tido peso decisivo, a queda do governo resultou, sobretudo, da combinação entre pressão externa e rearranjos internos de poder. Nesse cenário, as Forças Armadas exerceram papel central no desfecho político.
Segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, a operação dos Estados Unidos intensificou um ambiente de pressão extrema sobre o Palácio de Miraflores. Como consequência, decisões que já vinham sendo discutidas nos bastidores avançaram de forma acelerada. Além disso, setores militares passaram a reavaliar o custo político, econômico e institucional de manter Maduro no poder diante do risco de isolamento total da Venezuela.
Paralelamente, Trevisan observa que o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, buscava apresentar um resultado político concreto ao seu eleitorado. Assim, a ofensiva também respondeu a interesses domésticos, em meio ao desgaste interno do governo norte-americano e à necessidade de sinalizações claras à indústria petrolífera, setor estratégico para sua base de apoio.

Pressão externa acelera decisões internas
Na avaliação do professor, a ofensiva dos Estados Unidos não apenas enfraqueceu o regime, como também abriu espaço para negociações dentro da própria estrutura de poder venezuelana. “Maduro pode não ter sido preso, mas entregue. Tenho uma sensação de que, pressionados pelo Trump, que precisava de algum troféu, os militares entregaram o que não deles.” A declaração reforça a tese de que o desfecho ocorreu menos por uma ruptura violenta e mais por um acordo interno para preservar interesses estratégicos.
Além disso, Trevisan aponta que a relação de Maduro com as Forças Armadas sempre se mostrou frágil. Diferentemente de Hugo Chávez, que construiu sua trajetória entre os militares, Maduro nunca estabeleceu um vínculo orgânico com esse grupo de poder.
Militares como eixo do poder político e econômico
Ex-motorista de ônibus e líder sindical do metrô de Caracas, Maduro passou a ser visto, desde o início, como uma figura externa ao universo militar. “Após a morte de Chávez, os militares tiveram que se adaptar a uma figura que não era do mundo deles.” Esse distanciamento enfraqueceu sua sustentação política ao longo do tempo.
Por fim, o professor ressalta que os militares venezuelanos exercem influência direta sobre áreas estratégicas da economia. Dessa forma, isso torna qualquer transição política dependente de sua anuência. Dessa forma, a entrega de Maduro surgiu como uma solução calculada para evitar uma ruptura institucional mais profunda e garantir a preservação de interesses internos.

