
Santa Catarina registrou 334 casos de feminicídio — assassinatos de mulheres motivados por gênero — entre 2020 e 2024. Os dados fazem parte do Mapa do Feminicídio, divulgado pelo Ministério Público do estado nesta segunda-feira (30). Além disso, o estudo cruza informações oficiais e apresenta análises que ajudam a entender como esse tipo de violência se manifesta no território catarinense.
Maioria dos crimes ocorre em relações afetivas
Em primeiro lugar, o levantamento evidencia um forte vínculo com relações afetivas. Isso porque 71% dos casos são classificados como feminicídios íntimos, cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Ao mesmo tempo, os dados indicam maior incidência entre mulheres com renda familiar per capita de até cinco salários mínimos e baixa escolaridade, o que reforça barreiras no acesso à justiça e aos mecanismos de proteção.
Além disso, o estudo mostra que, embora os números absolutos sejam maiores em cidades maiores, o risco proporcional cresce em municípios menores. Nesse contexto, surgem os chamados “corredores do fenômeno feminicida”.
Perfil das vítimas aponta vulnerabilidade
De acordo com o levantamento, 73,2% das vítimas nunca tiveram acesso a medida protetiva, enquanto 19,7% chegaram a solicitar o recurso.
Em relação à idade, 79,7% tinham entre 12 e 49 anos, com maior incidência entre 18 e 24 anos e entre 35 e 39 anos. Além disso, 97,6% eram brasileiras, e 2% estrangeiras.
Outro dado relevante mostra que 65% das vítimas eram mães. Ao mesmo tempo, 31,9% tinham ensino fundamental incompleto, o que evidencia dificuldades de acesso à informação e à proteção. Já no campo econômico, 71,5% não tinham vínculo formal de trabalho e 23,4% se dedicavam às atividades domésticas.
Autores são, em sua maioria, parceiros ou ex
Na maioria dos casos, o agressor mantinha vínculo direto com a vítima. Em 40,8% das ocorrências, o crime foi cometido por companheiros ou cônjuges. Já em 23,1%, por ex-companheiros.
Além disso, a ruptura do relacionamento aparece como um momento crítico: 45,8% dos feminicídios íntimos ocorreram após o término da relação, indicando uma escalada da violência.
Crimes acontecem dentro de casa e à noite
Na maior parte das ocorrências, o feminicídio acontece dentro de casa: 76,4% dos casos foram registrados no ambiente doméstico.
Em relação aos meios, o uso de arma branca aparece em 47,7% dos casos, mais que o dobro do uso de arma de fogo (22,9%). Isso indica que muitos crimes ocorrem com objetos disponíveis no momento.
Além disso, 56,4% dos casos acontecem à noite ou durante a madrugada, principalmente entre sexta-feira à noite e segunda-feira de madrugada.
“Corredores do feminicídio” concentram casos no interior
A análise territorial identificou regiões com maior incidência proporcional de feminicídios. Um dos corredores está no Oeste catarinense, entre Xanxerê e São Miguel do Oeste.
Outro eixo relevante se estende entre Lages e Curitibanos, formando uma faixa com índices superiores aos registrados no litoral e em grandes centros urbanos.
Histórico de violência antecede maioria dos casos
Outro dado alarmante mostra que 68,9% das vítimas já tinham histórico de violência antes do crime.
No entanto, muitas dessas agressões não foram registradas oficialmente. Nesse sentido, especialistas apontam falhas no acesso aos serviços de proteção, na informação e no acolhimento das vítimas.
Estado registra uma tentativa a cada 40 horas em 2026
Além dos casos consumados, Santa Catarina também apresenta números elevados de tentativas de feminicídio. Entre 1º de janeiro e 13 de março de 2026, o estado registrou 42 tentativas.
Isso representa, em média, uma tentativa a cada 40 horas. As cidades com mais registros foram São Francisco do Sul e Joinville.
Dessa forma, os dados reforçam a gravidade do cenário e evidenciam a necessidade de políticas públicas mais eficazes para prevenir, proteger e enfrentar a violência contra a mulher.
Como denunciar
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no Exterior. A ligação é gratuita.
O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico.
Também é possível entrar em contato pelo whatsapp (610 99656-5008)

