Região Santa Catarina

Fim da pesca da tainha: decisão federal provoca revolta e críticas em SC

Medida encerra atividade artesanal e atinge símbolo cultural do litoral catarinense

Autor
Fim da pesca da tainha: decisão federal provoca revolta e críticas em SC
Foto: Divulgação / Adriana Lamin - Bombinhas

O anúncio do governo federal neste domingo (7) caiu como uma bomba sobre as comunidades pesqueiras de Santa Catarina. Em plena safra da tainha, considerada uma das melhores dos últimos anos, o Ministério da Pesca e Aquicultura determinou o encerramento imediato da captura por arrasto de praia, modalidade que simboliza a cultura, a história e a identidade de dezenas de municípios do litoral catarinense.

A medida, baseada no sistema de cotas estabelecido por Brasília, interrompe uma atividade centenária justamente quando pescadores registravam lanços expressivos e celebravam uma temporada marcada pela fartura dos cardumes. Por isso, a decisão gerou forte reação entre comunidades pesqueiras, lideranças do setor e moradores que enxergam na pesca da tainha muito mais do que uma atividade econômica.

Para milhares de famílias, a ordem representa um golpe em uma tradição que atravessa gerações. Afinal, a pesca artesanal da tainha não movimenta apenas a economia. Ela reúne comunidades inteiras nas praias, preserva costumes históricos e mantém viva uma das manifestações culturais mais emblemáticas de Santa Catarina.

Decisão federal interrompe safra histórica

Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, o encerramento ocorre porque a modalidade atingiu 90% da cota autorizada para a temporada de 2026. O limite para o arrasto de praia foi fixado em 1.332 toneladas, e a regulamentação prevê a suspensão das atividades quando esse percentual é alcançado.

No entanto, a determinação chegou justamente quando pescadores relatavam uma temporada excepcional. Em diversas praias catarinenses, os cardumes apareceram com intensidade rara, garantindo capturas que não eram registradas havia vários anos.

Patrimônio cultural ameaçado

A pesca da tainha ocupa um espaço único na formação da identidade catarinense. Todos os anos, os ranchos de pesca se transformam em verdadeiros pontos de encontro das comunidades, reunindo pescadores, famílias, moradores e turistas em torno de uma tradição que ajudou a construir a história do litoral.

Além disso, a atividade gera renda para milhares de pessoas. Do pescador que puxa a rede ao comerciante que vende o pescado, a cadeia econômica da tainha movimenta cidades inteiras durante a temporada.

Por isso, o encerramento antecipado volta a alimentar críticas ao sistema de cotas imposto pelo governo federal. Muitos pescadores defendem que a pesca artesanal de arrasto de praia receba tratamento diferenciado justamente por seu caráter cultural, histórico e comunitário.

Tensão cresce entre SC e o governo federal

A decisão também amplia uma discussão que se repete nos últimos anos entre Santa Catarina e Brasília. Enquanto pescadores argumentam que a atividade representa um patrimônio cultural do Estado, o governo federal sustenta que o controle por cotas é necessário para garantir a sustentabilidade da espécie.

Mesmo assim, a suspensão anunciada neste domingo reforça a sensação de que uma tradição secular perdeu espaço para uma decisão burocrática. Para muitos catarinenses, não se trata apenas do fim antecipado de uma temporada. Trata-se da interrupção de um dos costumes mais simbólicos do litoral, justamente em um ano que prometia entrar para a história pela abundância dos cardumes.

Murilo José

Sobre o autor

Murilo José

Jornalista do Guararema News, atua na região do médio Vale do Itajaí e Litoral Norte. Suas pautas geralmente são direcionadas a assuntos factuais que tem impacto no dia a dia da comunidade. Murilo também atua com reportagens especiais em projetos autorais. Além disso, também contribui com conteúdo esportivo.

Ver todas as matérias de Murilo José