
A Ponte Hercílio Luz completa 100 anos nesta quarta-feira (13), em Florianópolis, e reafirma seu protagonismo como o maior símbolo arquitetônico e histórico de Santa Catarina. Inaugurada em 13 de maio de 1926, a estrutura foi a primeira ligação terrestre entre a Ilha de Santa Catarina e o continente e mudou para sempre o rumo da Capital.
Desde sua entrega, a ponte fortaleceu a economia, facilitou o deslocamento de pessoas e mercadorias e consolidou Florianópolis como centro político e administrativo do estado. Mais do que isso, ela ajudou a impedir que a capital catarinense fosse transferida para outra cidade, em um momento de forte debate político sobre o futuro administrativo de Santa Catarina.
Hoje, a Hercílio Luz não é apenas uma ponte. Ela é patrimônio, memória afetiva e orgulho coletivo. É o cartão-postal mais reconhecido do estado e uma referência nacional quando o assunto é preservação histórica.
Uma obra que mudou Florianópolis
Antes da construção da ponte, a travessia entre a ilha e o continente acontecia por meio de embarcações e balsas, o que tornava o transporte lento, limitado e vulnerável às condições climáticas.
Essa dificuldade comprometia o crescimento econômico e enfraquecia Florianópolis diante de outras cidades do interior, especialmente Lages, que surgia como possibilidade real para assumir o posto de capital catarinense.
Foi nesse contexto que nasceu a ideia da ponte. A obra recebeu o nome em homenagem ao então governador Hercílio Luz, defensor da integração entre ilha e continente. Embora ele tenha falecido antes da inauguração, seu nome ficou eternizado na principal estrutura do estado.

A construção começou em 1922 e envolveu empresas e engenheiros estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos. A ponte foi projetada pela American Bridge Company, mesma empresa que participou de outras grandes obras internacionais.
Com 821 metros de extensão, ela se tornou a maior ponte pênsil do Brasil e uma das maiores do mundo em seu período. Seu sistema estrutural com barras de olhal é raro e faz da Hercílio Luz uma referência internacional em engenharia.
Tombamento e luta pela preservação
Com o avanço do tempo e o aumento do tráfego urbano, a ponte começou a apresentar sinais de desgaste. Em 1982, o governo decidiu interditar completamente a passagem de veículos por questões de segurança estrutural.
A partir dali, começou uma longa batalha entre abandono e preservação. Durante anos, surgiram debates sobre demolição, restauração e até substituição definitiva da estrutura.
No entanto, a mobilização da sociedade civil, de especialistas e de lideranças políticas impediu que a ponte fosse perdida.

O processo de tombamento foi decisivo. A Hercílio Luz passou a ser protegida como patrimônio histórico em níveis municipal, estadual e federal, garantindo respaldo legal para sua preservação.
Nesse cenário, o então deputado estadual Cesar Souza apresentou o Projeto de Lei nº 89/96, reforçando o reconhecimento da ponte como patrimônio histórico e cultural de Santa Catarina e ampliando o debate sobre sua importância para o estado.
A UFSC também participou ativamente das discussões técnicas sobre recuperação e uso futuro da estrutura, assim como autoridades públicas, incluindo o então prefeito César Souza Júnior.
A restauração mais aguardada de Santa Catarina
A restauração da ponte foi longa, complexa e cercada de desafios técnicos e financeiros. Durante décadas, a população acompanhou promessas, paralisações e retomadas de obras.
Somente em dezembro de 2019, após um extenso processo de revitalização, a Ponte Hercílio Luz voltou a ser reaberta oficialmente.
A entrega representou muito mais do que mobilidade urbana. Ela devolveu à população um símbolo emocional profundamente ligado à identidade de Florianópolis.
Hoje, além do tráfego de veículos, a ponte recebe pedestres, ciclistas e turistas. O espaço também se consolidou como ponto de contemplação, turismo e eventos culturais.
Símbolo que atravessa gerações
A Hercílio Luz está nas fotografias antigas de família, nos cartões-postais, nas campanhas publicitárias, nos filmes, nas músicas e no imaginário de quem vive em Santa Catarina.

Ela não conecta apenas dois pontos geográficos. Ela conecta passado e presente.
Ao completar um século nesta quarta-feira (13), a ponte celebra resistência. Celebra permanência. Celebra a capacidade de uma cidade de preservar sua própria história.
Em uma Florianópolis cada vez mais moderna e acelerada, a Hercílio Luz segue firme, como quem lembra silenciosamente que progresso também precisa de memória.
E talvez esse seja seu maior legado: continuar atravessando o tempo sem deixar que a cidade esqueça de onde veio.
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