
Documentos financeiros e registros de investigações apontam uma possível ligação entre recursos do narcotráfico internacional e a operação que resultou na compra do Banco Master pelo empresário Daniel Vorcaro. As informações foram divulgadas pelo portal ICL Notícias, que teve acesso a registros de transações, processos judiciais e documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Segundo uma fonte do mercado financeiro ouvida pela reportagem, o narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin teria participado indiretamente da estrutura de investimentos que ajudou a viabilizar a aquisição da instituição financeira. A ligação, conforme o relato, ocorreu por meio de fundos administrados por empresas associadas ao operador do mercado financeiro Benjamim Botelho de Almeida.
Os documentos analisados indicam que Ortiz aparecia como cotista em fundos ligados ao Grupo Aquilla, organização financeira que mantinha relações com a corretora Sefer Investimentos — antiga Foco Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM). Além disso, o mesmo conjunto de empresas também aparece em diferentes investigações conduzidas por autoridades brasileiras.
De acordo com a fonte ouvida pela reportagem, parte dos recursos utilizados em fundos imobiliários ligados ao grupo teria origem em operações de lavagem de dinheiro atribuídas ao narcotraficante. No entanto, o sigilo bancário impede a confirmação do volume exato dos investimentos mencionados.
Investigações apontam suspeitas de fraude financeira
A Polícia Federal investiga o Banco Master dentro da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras envolvendo fundos de investimento.
Segundo os investigadores, o esquema incluía a compra de empresas de baixo valor e a posterior manipulação de seus resultados financeiros. Com isso, os responsáveis inflariam artificialmente o valor dessas companhias e criariam uma aparência de crescimento patrimonial.
Em seguida, os envolvidos utilizariam esses ativos em operações com fundos de investimento. Dessa forma, os recursos circulariam por diferentes empresas e estruturas financeiras. A Polícia Federal analisa se essas operações violaram regras do mercado de capitais, incluindo manipulação de preços, uso de informações privilegiadas e venda de ativos de baixo valor.
Além disso, os autos da investigação apontam que diversas transações envolveram empresas ou intermediários ligados direta ou indiretamente a Daniel Vorcaro e Benjamim Botelho. Esse padrão levantou suspeitas sobre possíveis conflitos de interesse e benefícios indevidos.
Em decisão judicial assinada no início do ano, o ministro Dias Toffoli autorizou medidas investigativas contra Botelho e empresas ligadas à Sefer Investimentos. A decisão considerou indícios de que o operador financeiro controlaria estruturas usadas em transações sob investigação.
Relação entre Vorcaro e Botelho já era investigada
As suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e Benjamim Botelho não começaram com o escândalo recente do Banco Master. Autoridades já investigavam os dois empresários em outras operações da Polícia Federal.
A própria Operação Compliance Zero analisa possíveis irregularidades em investimentos realizados por fundos de previdência de servidores públicos estaduais e municipais. De acordo com a Polícia Federal, cerca de R$ 2 bilhões foram aplicados em operações ligadas ao Banco Master.
Antes disso, em 2020, Vorcaro e Botelho também foram citados na Operação Fundo Fake, que investigou fraudes relacionadas ao antigo Banco Máxima. Posteriormente, Vorcaro adquiriu essa instituição e mudou o nome para Banco Master.
Na época, o Ministério Público Federal denunciou Benjamim Botelho por gestão fraudulenta do Banco Máxima. Segundo a acusação, o grupo utilizou fundos ligados ao conglomerado Aquilla para simular aportes financeiros e esconder a real situação patrimonial da instituição.
De acordo com o Ministério Público, as operações incluíam uma triangulação financeira. Nesse modelo, recursos do próprio banco voltariam à instituição disfarçados como investimentos externos.
Intermediação na compra do banco
A compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro ocorreu em 2017. Anos depois, a instituição passou a se chamar Banco Master. No entanto, uma fonte do mercado financeiro afirmou ao ICL Notícias que Benjamim Botelho intermediou as negociações que levaram à aquisição do banco.
Segundo o relato, Botelho aproximou Vorcaro do então controlador da instituição, o empresário Saul Sabbá. Naquele período, o banco enfrentava dificuldades após investigações e problemas de gestão identificados pelo Banco Central.
A fonte afirma que Vorcaro não tinha experiência prévia no mercado financeiro. Por isso, operadores especializados teriam participado das negociações e da estruturação da compra da instituição.
Nos anos seguintes, o banco ampliou suas operações no mercado financeiro. Contudo, em novembro do ano passado, o Banco Central determinou a liquidação da instituição após identificar irregularidades que passaram a ser investigadas pelas autoridades.
Documentos ligam narcotraficante a fundos de investimento
Registros analisados pela reportagem indicam que Oliver Ortiz aparecia como cotista em fundos administrados pela antiga Foco DTVM. Documentos de 2015 mostram que o espanhol investiu em fundos imobiliários ligados ao Grupo Aquilla.
Esses fundos participaram de operações relacionadas à compra do Banco Máxima, que posteriormente se transformou no Banco Master. Segundo a fonte do mercado financeiro, essa estrutura permitia uma triangulação financeira que colocava Ortiz como investidor indireto do banco.
A mesma fonte afirma que o narcotraficante utilizava estratégias de valorização imobiliária para ampliar seus investimentos. Ele comprava terrenos por valores baixos e depois os incorporava a fundos de investimento administrados pelo grupo.
Após a inclusão nos fundos, avaliações imobiliárias elevavam o valor dos terrenos. Com isso, o patrimônio registrado aumentava e ampliava o valor das cotas dos investidores.
Quem é o narcotraficante Oliver Ortiz
A Polícia Federal prendeu o espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin no Rio de Janeiro em 2013. Naquele mesmo ano, a Justiça brasileira o condenou a 16 anos de prisão por tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.
As investigações apontaram que ele comandava uma estrutura de envio de cocaína para a Europa, principalmente por rotas marítimas.
Segundo o Ministério Público Federal, Ortiz também investiu em imóveis e empresas no Brasil para lavar recursos provenientes do tráfico. Entre os bens identificados estavam imóveis de alto padrão e estabelecimentos comerciais no Rio de Janeiro.
No ano passado, a Polícia Federal notificou o espanhol sobre a decisão de expulsá-lo do Brasil após o cumprimento da pena determinada pela Justiça.

