
Na sexta-feira (06) foi divulgado que pesquisadoras brasileiras usaram camisinhas em um experimento científico para investigar o comportamento de cigarras na Amazônia. O estudo foi realizado durante uma pesquisa de campo na floresta e buscou explicar para que servem as torres de argila construídas por ninfas da espécie Guyalna chlorogena. As cientistas conduziram o trabalho na região amazônica, durante atividades de observação ecológica, e decidiram testar como essas estruturas interferem na sobrevivência do inseto durante a metamorfose.
Experimento criativo em campo
Durante a pesquisa, as cientistas observaram que as ninfas constroem torres cilíndricas de barro que podem atingir vários centímetros de altura. Essas estruturas aparecem no solo pouco antes da fase final de transformação do inseto.
Diante disso, a equipe decidiu testar a função dessas torres. Para isso, bloqueou a circulação de ar dentro das estruturas. As pesquisadoras cobriram as torres com preservativos de látex e vedaram o topo com plástico. Dessa forma, impediram a troca de gases com o ambiente.
Depois de cerca de 18 horas, as cientistas removeram a vedação e quebraram as torres. Em seguida, observaram a reação das ninfas e acompanharam como os insetos reconstruíram as estruturas.
Estruturas ajudam na sobrevivência
Os resultados mostraram que as torres exercem papel importante no desenvolvimento das cigarras. As estruturas ajudam a regular as condições do ambiente onde as ninfas permanecem enterradas. Além disso, facilitam a circulação de gases e criam um microambiente mais estável durante a metamorfose.
As pesquisadoras também perceberam que torres maiores reagiram de maneira diferente ao bloqueio de ar. Em alguns casos, as ninfas reforçaram ou ampliaram as estruturas durante a reconstrução.
Por isso, as autoras classificaram essas construções como um tipo de fenótipo estendido. Ou seja, características do organismo aparecem também nas estruturas que ele constrói no ambiente ao redor.
Proteção contra predadores
Além da função respiratória, o estudo também analisou outro possível benefício das torres. As pesquisadoras investigaram se essas estruturas também funcionam como proteção contra predadores.
Para isso, colocaram iscas em dois locais diferentes, no topo das torres e diretamente no chão da floresta. Em seguida, monitoraram a presença de formigas.
Os resultados foram claros. As formigas apareceram com muito mais frequência nas iscas colocadas no solo. A presença de predadores foi cerca de oito vezes maior nessa área.
Assim, as torres elevam a posição da ninfa e reduzem o risco de ataque. Dessa maneira, os insetos aumentam as chances de sobreviver até a fase adulta.
Ciência também nasce da criatividade
O estudo mostra que observação cuidadosa e criatividade também impulsionam descobertas científicas. Mesmo com recursos simples, as pesquisadoras conseguiram revelar um comportamento complexo de insetos que vivem escondidos no solo da floresta.
Ao usar um objeto comum do cotidiano como ferramenta experimental, a equipe abriu novas possibilidades para entender melhor a ecologia das cigarras na Amazônia.

