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De ponta-cabeça? Nova perspectiva do mapa-múndi mantém Brasil no centro do mundo

Ele traz destacados os países que compõem o Brics, o Mercosul, os países de língua portuguesa e do bioma amazônico

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De ponta-cabeça? Nova perspectiva do mapa-múndi mantém Brasil no centro do mundo
Foto: Divulgação/IBGE

Nesta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou o mapa-múndi oficial, de forma invertida. Você já imaginou como seria? Essa nova perspectiva em que o Sul aparece no topo da imagem mantém o Brasil como centro do mundo na imagem.

Esse lançamento, do novo mapa-múndi, integra uma série de ações estratégicas para a reflexão e o debate sobre a importância do Sul Global, em meio à crescente importância do Brasil no cenário internacional e às mudanças geopolíticas mundiais.

Detalhes do novo mapa-múndi

Ele traz destacados os países que compõem o Brics, o Mercosul, os países de língua portuguesa e do bioma amazônico, a cidade do Rio de Janeiro, como capital do Brics, a cidade de Belém, como capital da COP30, e o Ceará como sede do Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global – Novos Indicadores e Temas Estratégicos para o Desenvolvimento e a Sustentabilidade na Era Digital, em junho, em Fortaleza.

“A projeção escolhida pelo IBGE para seu novo mapa-múndi é a projeção de ECKERT III, apresentada por Max Eckert-Greifendorff (1868-1938) em 1906, uma projeção que faz parte de um conjunto de seis projeções. É esta que está sendo utilizada pelo IBGE, uma projeção cartográfica adequada para mapeamento temático do mundo, pois representa o globo de forma mais equilibrada, distorcendo áreas polares”, explicaram geógrafos.

É errado o Norte estar apontando para baixo e o Sul para cima?

“Foi proposital. Afinal de contas, o apontamento dos pontos cardeais é uma convenção cartográfica e não se constitui em um erro técnico. Aliás, alguns estudiosos apontam essa questão da convenção norte-sul com tendo alguns vieses. Por exemplo, temos um viés sutil em que algumas pessoas, ao verem um mapa, com o Norte apontado para cima, atribuem questões boas e valores mais ricos a coisas que estão localizadas na parte superior do mapa. E, ao mesmo tempo atribuem coisas ruins, valores mais baixos de imóveis, e pobreza, a coisas relacionadas no mapa na porção inferior, ou seja, na porção sul do mapa”, afirmou a diretora de Geociências do instituto, Maria do Carmo Dias Bueno.

Viés político relacionado à questão Norte-Sul

“Como historicamente os primeiros mapas foram feitos majoritariamente por europeus, atribui-se a colocação da Europa na parte superior do mapa como uma questão de reforço da superioridade da Europa em relação aos países localizados na porção sul. Isso, na verdade, trouxe protestos dos países do Sul, principalmente dos latino-americanos. Gostaria de enfatizar que mapas são representações do mundo real. Os mapas podem ser bonitos ou feios, podem ser simples ou mais complexos, mas são sempre representações”, disse.

Protagonista do novo mundo

Essa nova perspectiva de representação do mundo gerou discussões, mas, sobretudo, desnaturalizou perspectivas universalizantes e consagradas a partir de centros e países até então dominantes. Tal fato abre novos caminhos para o Brasil e para o mundo a partir de novas representações e interesses geopolíticos.

Enfim, o novo mapa-múndi coloca o Brasil em destaque no cenário internacional e no contexto geopolítico atual de um mundo em ebulição, crises e transformações com disputas e, também, diálogos e concertações rumo a novos arranjos e relações internacionais.

Vale salientar que os mapas não são neutros, são fruto da conjuntura política, econômica e social. “O mapa-múndi é, assim como outros, uma representação do mundo. Mapas também são convenções validadas pelos usos e aceitação de sociedades científicas, instituições de ensino, agências e órgãos públicos e privados, sobretudo, estatais. No Brasil, o IBGE é a instituição de maior referência e prestígio na elaboração e difusão de mapas. Recentemente publicou duas novas versões do mapa-múndi, uma com o Brasil no centro do mapa, e outra com essa mesma representação só que ‘invertida’. Ambos mantêm as projeções cartográficas usuais, mas adotando perspectivas distintas”, afirmou o geógrafo, Luis Henrique Leandro Ribeiro.

Você sabia?

O professor Rafael Sânzio Araújo dos Anjos, do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB), em 2007, já havia publicado o mesmo mapa-múndi pena UnB. Ele salienta que as pesquisas brasileiras já utilizam este mapa há 20 anos. Entretanto, o IBGE, ao trazer esta cartografia do Brasil no centro do mundo, mexendo no eixo Sul-Norte, é que dá oficialidade. Esse é o grande trunfo de uma publicação como essa. “É oficial”, disse o cartógrafo.

Por trás da história do mapa-múndi

Os pesquisadores afirmam que as representações gráficas do mundo a partir do século 16 mostram visões de terras conhecidas com os mapas orientados para o Polo Norte. “Os europeus nos impuseram o mapa a partir do século 16. A Europa moderna começa a fortalecer os seus estados. É quando ela inicia a diáspora e vai enriquecer com a África, com a América, com o Novo Mundo, e o Brasil está nesse bojo. As imagens aparecem como verdade. Desmistificar esse processo é muito importante. Uma boa maneira de fazer é mostrar uma outra imagem”, afirmou.

O professor do Instituto de Geografia da Uerj Leandro Andrei Beser lembra que mapas são meios de comunicação e que, ao longo da história, várias convenções foram tomadas como verdades ou como padrão e foram pouco questionadas. “Quando surge esse mapa-múndi clássico, em que a Europa está no centro, é um contexto em que a gente está falando da expansão marítima europeia com suas invasões. Ele tem o intuito de orientar as navegações. É uma visão eurocêntrica. Quando a gente consolida o sistema de ensino no século 19 e século 20, a gente acaba adotando esse mapa como padrão e ele acaba sendo inserido no sistema escolar. Virou o mapa oficial. Só que não há apenas essa maneira de representar o mundo. Essas escolhas dependem da visão de mundo do cartógrafo”, disse o pesquisador.

“Esse mapa quer comunicar que o Brasil está hoje no centro do mundo em relação a inúmeras questões como líder do Brics, líder do Mercosul”, afirmou Beser.

A projeção mais comum

A projeção de Mercator foi elaborada em 1569 por Gerardus Mercator (1512-1594) e a de Robinson foi elaborada em 1963 por Arthur Robinson. Contudo, a primeira projeção feita por Mercator foi elaborada essencialmente para apoiar a navegação marítima na época das grandes navegações, sendo apoio como mapa náutico. Porém, pesquisadores afirmam que ela distorce as dimensões quanto mais longe for da linha do Equador. Por exemplo, basta observar que, em mapas com esta projeção, a Groenlândia parece ter maior tamanho do que o continente africano, o que não é verdade.

Já a projeção de Robinson foi elaborada para minimizar essas distorções mencionadas, apresentando um maior equilíbrio entre a forma e área dos continentes. Essa é inclusive, uma projeção muito utilizada em mapas mundiais para livros didáticos.

Desvantagens do novo mapa-múndi

Os membros da Associação de Geógrafas e Geógrafos Brasileiros citam duas desvantagens desse novo mapa do IBGE:

  • O primeiro é sobre a capacidade de entendimento do mapa por parte dos leitores, uma vez que estamos habituados com o Norte para cima e a Europa ao centro.
  • O segundo, precisamos lembrar que mapas são ‘ferramentas dotadas de poder e são capazes de (re)escrever ordens mundiais’, para citar o geógrafo Yves Lacoste. Assim, entendendo a capacidade discursiva dos mapas, algumas lideranças podem não gostar desta representação, exatamente por expressar uma crítica a esta história colonial que sentimos na América Latina e, em especial, no Brasil”, ponderaram.

Com informações da Agência Brasil