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Nora Krug: arquivos nazistas ampliam busca por histórias familiares — entenda o limite

Nora Krug explica por que arquivos nazistas ajudam, mas não bastam, para investigar histórias familiares e enfrentar o peso da memória histórica.

Nora Krug: arquivos nazistas ampliam busca por histórias familiares — entenda o limite

A disponibilidade de arquivos do NSDAP, partido de Adolf Hitler, tornou mais acessível a investigação sobre a participação de familiares no passado nazista. Para a quadrinista Nora Krug, no entanto, consultar esses registros é apenas o começo de uma apuração que exige contexto e disposição para encarar responsabilidades históricas.

O que Nora Krug defende sobre o passado?

“É um ponto de partida, mas não é suficiente”, afirmou Krug. A autora germano-americana pesquisou por conta própria a trajetória de parentes há mais de uma década e transformou essa busca no livro de memórias ilustrado Heimat: Ponderações de uma alemã sobre sua terra e história, publicado no Brasil pela editora Quadrinhos na Cia. em 2019.

A investigação ganhou novo alcance neste ano, depois que o governo americano disponibilizou arquivos do partido nazista. Na Alemanha, também se multiplicaram os sites que permitem consultar nomes de filiados ao NSDAP. Ainda assim, os registros não explicam sozinhos como cada pessoa se comportou antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

A investigação ganhou novo alcance neste ano, depois que o governo americano…

Onde Nora Krug participa de evento no Brasil?

Onde Nora Krug participa de evento no Brasil?

Nora Krug está em São Paulo nesta semana para participar da quinta edição do Festival Literário do Museu Judaico. Nesta quinta-feira, ela integra uma mesa sobre “passados traumáticos” ao lado do quadrinista Marcelo D’Salete.

A presença da autora no evento ocorre em um momento em que sua obra continua relacionada a debates sobre memória, identidade e responsabilidade histórica. Em entrevista por telefone, Krug disse que é necessário “continuar falando sobre o passado” enquanto existirem antissemitismo, racismo ou agressões contra pessoas que pensem ou sintam de maneira diferente.

Como a pesquisa aparece em Heimat?

No livro, Krug combina documentos, lembranças e desenhos para examinar a relação da própria família com a Alemanha nazista. Entre os materiais reproduzidos está uma redação escolar escrita por um tio em 1939, na qual judeus são comparados a cogumelos venenosos que poderiam destruir uma família.

No livro, Krug combina documentos, lembranças e desenhos para examinar a relação…

A autora também apresenta uma análise escolar feita por ela e colegas sobre um discurso de Hitler. Ao relembrar o trabalho, Krug observa que os estudantes aprenderam como a língua alemã, antes vista como poética, também poderia ser usada de maneira perigosa.

Krug deixou a Alemanha há 23 anos para estudar e passou a viver nos Estados Unidos. Segundo ela, a distância ajudou a despertar o interesse por documentos encontrados em arquivos de pequenas cidades, além de pistas reunidas em casas de familiares e conhecidos.

Qual é a relação com a guerra atual?

A preocupação com a memória histórica também aparece em Diários da Guerra: Ucrânia e Rússia em Dois Relatos Gráficos, lançado no Brasil pela Quadrinhos na Cia. no ano passado. Na obra, Krug acompanha durante um ano as narrativas de personagens reais, cada um situado em um dos lados do conflito.

Para a quadrinista, alternar presente e passado, experiências pessoais e relatos de outras pessoas, é uma forma de mostrar que acontecimentos traumáticos não ficam necessariamente encerrados no tempo. Ela também afirma não saber se teria feito a pesquisa sobre sua família caso não tivesse deixado a Alemanha.

A autora identifica ainda a influência de Nova York, cidade para onde muitos judeus foram depois da Segunda Guerra Mundial. Foi nos Estados Unidos que ela conheceu o marido, criado, segundo seu relato, em um ambiente marcado por tradições judaicas e senso de humor.

Ao aproximar documentos familiares de conflitos contemporâneos, Nora Krug sustenta que investigar o passado não é apenas um exercício genealógico. Para ela, a memória continua sendo uma ferramenta necessária diante da permanência do preconceito e da violência contra grupos e indivíduos.