
O Jabuti 2026 voltou a colocar o uso de inteligência artificial no centro do debate após o designer gráfico Vicente Pessôa aparecer entre os semifinalistas, mesmo tendo sido desclassificado da premiação em 2023 por recorrer à tecnologia. Indicado na categoria capa por O Idiota, publicado pelo Clube de Literatura Clássica, ele afirma que mudou o processo criativo, mas ainda utiliza ferramentas de IA em etapas do trabalho.
O que aconteceu com o semifinalista do Jabuti 2026?
Pessôa foi eliminado do Jabuti em 2023 depois de usar inteligência artificial na capa de Frankenstein, também lançada pelo Clube de Literatura Clássica. Desde então, ele continua trabalhando com recursos generativos e diz ter adotado outro método para o projeto que agora concorre na edição de 2026.

Segundo o designer, a editora o orientou a não empregar IA na elaboração da capa de O Idiota. Ele afirma, porém, que gerou uma imagem no Midjourney e a utilizou como referência para produzir o desenho final. Questionado sobre possível descumprimento da orientação, respondeu: “Não sei”.

O caso expõe uma dificuldade prática para autores e profissionais que participam de concursos: a fronteira entre usar a tecnologia como referência e empregá-la diretamente na criação pode ser interpretada de maneiras diferentes. No Jabuti 2026, a regra afeta especialmente trabalhos gráficos e editoriais submetidos à avaliação.
O que diz a regra do prêmio sobre inteligência artificial?

O regulamento do Jabuti veta concorrentes que tenham usado IA ou ferramentas semelhantes em “tarefas autorais”. O prêmio considera nessa definição atividades pelas quais os autores respondem, como contribuições relevantes para a concepção da pesquisa, a interpretação de textos e dados e a produção dos elementos textuais da obra.
Pessôa afirma que a inteligência artificial se tornou uma ferramenta incorporada à rotina de designers. Ele diz que passou a substituir pesquisas de imagens no Google e no Archive.org por consultas ao ChatGPT e por comandos elaborados no Claude.
“O Jabuti está forçando todo mundo a mentir e premiando a mentira”, afirmou Vicente Pessôa.
Para o designer, cabe ao profissional resolver problemas com os recursos disponíveis, desde que o uso não seja ilegal. A avaliação dele é que o prêmio não acompanha as transformações ocorridas no mercado de trabalho.
Há outros semifinalistas com posição diferente?
Daniel Brito, também semifinalista na categoria capa, concorre pelo trabalho realizado em Anônimos. Ele discorda da ideia de que a IA seja inevitável na atividade e afirma conhecer designers que não utilizam esse tipo de ferramenta.
Brito diz que recorre à tecnologia para acelerar processos de tipografia, mas garante que ela não foi usada na capa selecionada para o Jabuti 2026. Segundo ele, o projeto envolveu um ensaio realizado no Liceu de Artes com um drone. Na etapa de diagramação, utilizou o Photoshop para tratamento de imagem e correção de angulação.
As trajetórias dos dois semifinalistas mostram que o debate não se limita à presença ou ausência de IA no processo. Também envolve a definição do que constitui autoria, referência, edição e contribuição criativa, além da forma como os participantes devem declarar os recursos utilizados. Por enquanto, o regulamento do prêmio mantém a restrição ao emprego da tecnologia em tarefas autorais.

