
O conceito de lugar de fala continua sendo debatido no Brasil, mas parte das críticas, segundo Djamila Ribeiro, é feita sem conhecimento suficiente sobre a ideia. A filósofa afirmou que o problema atinge o debate público porque transforma uma discussão sobre perspectivas sociais em uma interpretação equivocada sobre censura e impedimento de opiniões.
O que Djamila Ribeiro diz sobre lugar de fala?
Djamila Ribeiro tratou do tema em um curso gravado para a CasaFolha, em conteúdo divulgado em 15.out.2026. Mestre em filosofia pela Universidade Federal de São Paulo, ela afirmou que não se opõe a críticas, mas defendeu que qualquer avaliação precisa partir do conhecimento do objeto analisado.
“Para a gente poder criticar algo, a gente tem que compreender o nosso objeto de crítica. Isso é básico. Quando a gente estuda, a gente tem que ter honestidade intelectual”, disse Djamila.

O livro Lugar de Fala, lançado em 2017, tornou-se um best-seller e ganhou uma edição revista e ampliada pela Rosa dos Tempos. De acordo com a autora, muitos críticos não procuram entender as referências usadas na construção do conceito nem as autoras que contribuíram para seu desenvolvimento.
Por que o conceito é associado à censura?
Na avaliação de Djamila, a popularização da expressão veio acompanhada de uma distorção. Um dos principais equívocos seria interpretar lugar de fala como uma regra que impede pessoas de determinados grupos de participar de discussões ou de expressar opiniões.

Para a filósofa, essa leitura inverte o sentido da proposta. O conceito parte da ideia de que todas as pessoas falam a partir de uma posição social, formada por experiências, oportunidades e relações de poder diferentes.
“Todo mundo tem lugar de fala”, afirmou Djamila, ao explicar que a expressão não cria uma autorização exclusiva para falar, mas ajuda a identificar de onde cada pessoa constrói sua perspectiva.
Ela também relacionou a discussão à participação histórica de mulheres e pessoas negras no debate público. Segundo Djamila, esses grupos tiveram menos oportunidades de produzir e difundir suas interpretações sobre a sociedade, o que torna necessário ampliar a pluralidade de vozes.
Qual é o objetivo do lugar de fala?
Djamila Ribeiro defende que o conceito serve para questionar a ideia de que existe apenas uma narrativa legítima ou um único padrão de conhecimento válido. A proposta, segundo ela, é reconhecer experiências distintas e permitir que diferentes grupos participem da formulação do debate.
A filósofa afirmou ainda que parte da resistência ao conceito pode ser deliberada. Na visão dela, alguns setores se incomodam quando narrativas antes dominantes passam a dividir espaço com outras interpretações.
Ao mesmo tempo, Djamila reconheceu que nem toda crítica nasce de uma tentativa consciente de desinformar. Para ela, a circulação ampla da expressão e de suas versões simplificadas também leva pessoas a repetir o entendimento equivocado de boa-fé.
O debate apresentado por Djamila permanece ligado à forma como diferentes grupos são ouvidos na sociedade. A autora sustenta que compreender o lugar de fala não encerra a conversa, mas pode tornar a discussão mais precisa ao explicitar as experiências e posições sociais envolvidas.

