Região Santa Catarina

SC aposta em tecnologia e crédito para manter jovens no campo

Conectividade, formação técnica, acesso a financiamento e modernização das propriedades são apontados como caminhos para garantir a sucessão familiar no meio rural

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SC aposta em tecnologia e crédito para manter jovens no campo
A permanência dos jovens não depende apenas de financiamento e tecnologia. Foto: Divulgação

Santa Catarina busca ampliar as condições para que os jovens permaneçam no meio rural e assumam o futuro das propriedades familiares. Entre as principais demandas estão acesso ao crédito, internet de qualidade, formação técnica, estradas em boas condições e oportunidades para modernizar a produção.

O debate ganhou força durante a Semana Estadual de Incentivo à Permanência dos Jovens no Meio Rural, realizada entre sexta-feira (24) e quinta-feira (30). A iniciativa foi criada por uma lei estadual aprovada em 2020 e busca estimular ações voltadas à agricultura familiar, à sucessão rural e ao desenvolvimento sustentável.

Atualmente, Santa Catarina possui cerca de 183 mil propriedades rurais. Desse total, aproximadamente 142,7 mil estão ligadas à agricultura familiar, responsável por grande parte da produção agropecuária catarinense.

Por que os jovens estão deixando o campo?

A falta de perspectivas econômicas, as dificuldades para acessar financiamentos e os problemas de infraestrutura pesam na decisão de muitos jovens.

Enquanto as cidades oferecem empregos com salário mensal, a atividade rural depende do plantio, das condições climáticas, dos preços pagos pela produção e do tempo necessário até a colheita.

Além disso, algumas propriedades enfrentam internet instável, estradas precárias, baixa cobertura de telefonia e fornecimento irregular de energia. Esses problemas dificultam a adoção de tecnologias e reduzem a qualidade de vida das famílias.

O resultado aparece nos números. Em 1950, Santa Catarina tinha cerca de 1,2 milhão de moradores no meio rural e 362 mil nas cidades. Em 2010, o cenário havia se invertido: 5,24 milhões viviam em áreas urbanas e aproximadamente 1 milhão permanecia no campo.

Jovem escolheu modernizar propriedade da família

A história de Iuri Oliveira, de 20 anos, mostra como o conhecimento técnico pode mudar essa realidade.

Recém-formado como técnico agrícola pelo Centro de Educação Profissional Caetano Costa, em São José do Cerrito, ele recebeu propostas para trabalhar em outros locais. No entanto, preferiu retornar à propriedade da família, em Urupema, onde o principal cultivo é a maçã.

Com o apoio do pai e do avô, Iuri começou a introduzir novas práticas e tecnologias na produção. Para o jovem, permanecer no campo representa a possibilidade de empreender, aplicar o conhecimento adquirido e dar continuidade ao trabalho construído pela família.

A conexão com a internet também faz parte dessa transformação. A entrevista concedida por Iuri à TV Alesc ocorreu por meio de uma chamada conectada à internet via satélite, exemplo de como a tecnologia pode aproximar as áreas rurais do restante do mundo.

Crédito pode garantir a sucessão familiar

O acesso ao crédito aparece como uma das principais necessidades dos jovens agricultores.

Sem recursos, muitos não conseguem comprar máquinas, melhorar a estrutura da propriedade, iniciar uma nova cultura ou investir em tecnologias que aumentem a produtividade.

A legislação catarinense prevê medidas de apoio a agricultores com idade entre 15 e 29 anos. Entre as iniciativas estão linhas de crédito rural, subvenção de juros, ampliação de prazos e programas voltados aos jovens que pretendem assumir as propriedades familiares.

O objetivo é evitar que a falta de dinheiro interrompa a sucessão rural. Afinal, quando os filhos deixam definitivamente as propriedades, parte do conhecimento acumulado pelas famílias também se perde.

Educação aproxima sala de aula e propriedade

Outro caminho apontado para incentivar a permanência no campo é a chamada pedagogia da alternância.

Nesse modelo, os estudantes dividem a formação entre períodos de aulas presenciais e semanas junto às famílias nas propriedades. Assim, conseguem aplicar o conhecimento adquirido na escola diretamente na produção rural.

A proposta fortalece o vínculo do jovem com a comunidade e transforma a propriedade em um espaço de aprendizado, experimentação e inovação.

Além disso, a política estadual prevê educação de qualidade para filhos de agricultores familiares, formação técnica continuada e aproximação entre escolas, comunidades e instituições ligadas ao setor rural.

Internet deixou de ser luxo no meio rural

A conectividade passou a ocupar uma posição central no desenvolvimento das propriedades.

Com internet de qualidade, o produtor pode acompanhar preços, previsão do tempo, condições das lavouras, cursos, financiamentos e novas técnicas de manejo.

A conexão também permite usar sistemas de agricultura de precisão, controlar máquinas, acompanhar a produção em tempo real e ampliar a comercialização dos produtos.

Além disso, a internet facilita o acesso ao ensino a distância, aos serviços públicos e à comunicação. No campo moderno, sinal de internet já não é luxo. É infraestrutura básica.

Estradas e energia também pesam na decisão

A permanência dos jovens não depende apenas de financiamento e tecnologia.

Estradas vicinais em boas condições são essenciais para transportar insumos, animais e alimentos. Da mesma forma, energia elétrica de qualidade permite automatizar processos e ampliar a produtividade.

Programas de habitação rural, assistência técnica, políticas de preços mínimos e incentivos para agregar valor aos produtos também aparecem entre as medidas consideradas fundamentais.

Sem esse conjunto de condições, a juventude rural continua recebendo um convite silencioso para partir.

Agricultura familiar sustenta cadeias importantes

A agricultura familiar catarinense tem forte participação na produção de aves, suínos, leite, arroz, milho, maçã, cebola, fumo e mel.

Por isso, a saída dos jovens do campo não representa apenas um problema para as famílias. A falta de sucessores pode afetar cadeias produtivas inteiras e comprometer a continuidade da produção de alimentos.

Manter a juventude no meio rural, portanto, exige mais do que discursos sobre tradição. É preciso oferecer renda, tecnologia, crédito, educação e qualidade de vida.

O jovem permanece onde consegue construir futuro. No campo, essa decisão começa quando oportunidade deixa de ser promessa e vira condição concreta de trabalho.

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Ismael Melo

Sobre o autor

Ismael Melo

Jornalista do Guararema News, Ismael Melo atua na Grande Florianópolis com foco na cobertura de economia e política regional e nacional. Também produz conteúdos sobre acontecimentos factuais, esportes e temas de repercussão no Brasil. Além disso, possui experiência em radiojornalismo, comunicação institucional, produção audiovisual, podcasts e gestão de conteúdo para diferentes plataformas.

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