
O Instituto Iter, ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, empresa controlada pelo empresário mineiro Lucas Kallas. A empresa firmou o contrato de mútuo conversível com o instituto em abril de 2024. Posteriormente, em janeiro de 2026, o Iter decidiu interromper os repasses e começou a devolver os recursos. No mês seguinte, Mendonça foi sorteado relator das investigações relacionadas ao Banco Master.
Contrato previa R$ 5,9 milhões
Inicialmente, a Cedro se comprometeu a repassar R$ 5,9 milhões ao Instituto Iter. Para isso, as partes adotaram um contrato de mútuo conversível. Nesse tipo de operação, a empresa que empresta o dinheiro pode transformar o crédito em participação na entidade ou, alternativamente, cobrar a devolução do valor.
No entanto, o Iter decidiu encerrar o contrato depois de alcançar, segundo o próprio instituto, uma situação de sustentabilidade financeira. Além disso, as partes assinaram um termo aditivo que antecipou o vencimento da dívida e determinou o início imediato dos pagamentos.
Ainda de acordo com o Iter, a dívida tem juros calculados pela taxa Selic. Paralelamente, o instituto já começou a devolver parte dos recursos à Cedro.
Segundo a entidade, os valores permaneceram em uma conta bancária do próprio instituto. Além disso, o Iter afirma que destinou o dinheiro exclusivamente à sua estruturação e às atividades da instituição, conforme previa o contrato.
Instituto nega uso pessoal dos recursos
O Iter afirma que cumpriu todas as condições previstas no acordo. Além disso, segundo a instituição, André Mendonça nunca recebeu dividendos, lucros ou qualquer participação nos resultados.
A entidade também informou que Mendonça e Lucas Kallas não negociaram diretamente os termos da operação. De acordo com o Iter, o então presidente do instituto, Victor Godoy Veiga, conduziu as tratativas com representantes da Cedro.
Por outro lado, o instituto declarou que desconhecia outras relações societárias ou empresariais que a Cedro ou Kallas eventualmente mantivessem.
Enquanto isso, Mendonça deixou o Instituto Iter no início de setembro de 2026. Segundo a entidade, o ministro atuava no instituto apenas no âmbito acadêmico, como docente.
Kallas manteve negócios com Vorcaro
Lucas Kallas controla a Cedro Participações, holding que atua em setores como mineração, agronegócio e logística. Além disso, segundo informações divulgadas pelo UOL, o empresário manteve negócios com Daniel Vorcaro antes da prisão do banqueiro.
A Cedro, porém, nega que Vorcaro tenha mantido relação societária ou vínculo empresarial com seus negócios ou com suas empresas controladas. A empresa também afirma que a compra de participações em companhias abertas não caracteriza, por si só, uma sociedade comercial entre os investidores.
Além disso, a holding informou que deixou de integrar o quadro societário da Biomm e da Latache Capital em abril de 2026. Segundo a empresa, a decisão ocorreu para concentrar os investimentos no setor de mineração.
PF indiciou Kallas em investigação
Em junho de 2026, a Polícia Federal indiciou Lucas Kallas por suspeitas relacionadas à exploração da Mina Granja Corumi, na Serra do Curral, em Belo Horizonte.
Segundo a investigação, empresas que atuavam na região teriam ultrapassado as autorizações concedidas para retirar minério e executar ações de recuperação ambiental. A partir disso, a PF apontou suspeitas de crimes ambientais, lavagem ou ocultação de dinheiro, corrupção ativa e tráfico de influência.
A defesa de Kallas, no entanto, contesta as conclusões da investigação. Segundo o empresário, a Operação Parcours retomou fatos antigos que a Justiça já havia arquivado.
Além disso, Kallas afirma que deixou o negócio investigado em 2017 e que, na época, atuava apenas como sócio-investidor.
Até o momento, as acusações seguem sob investigação e não resultaram em condenação.
Mendonça se encontrou com Vorcaro
Além da relação entre o Iter e a empresa de Kallas, André Mendonça também se encontrou com Daniel Vorcaro. Segundo mensagens extraídas do celular do banqueiro e confirmadas pelo UOL, os dois se reuniram em março de 2025, na sede do Instituto Iter.
Na ocasião, Mendonça afirmou que tratou com o banqueiro sobre precatórios relacionados a um processo que tramitava no STF. Além disso, o ministro declarou que adotou, no julgamento, uma posição contrária aos interesses defendidos por Vorcaro.
Ainda segundo o UOL, mensagens encontradas pela Polícia Federal indicaram uma tentativa de incluir Vorcaro em um evento realizado pelo Instituto Iter em junho de 2025.
O instituto, entretanto, afirmou que terceiros tentaram incluir o banqueiro na lista de convidados. Segundo a entidade, Victor Godoy Veiga se opôs à participação e barrou o convite. Por isso, o Iter sustenta que não fez um convite institucional a Vorcaro e que ele não participou do evento.
Relação ocorre em meio a investigação do Banco Master
A operação financeira entre o Instituto Iter e a Cedro passou a chamar atenção porque o contrato foi firmado antes de André Mendonça assumir a relatoria das investigações relacionadas ao Banco Master.
O Iter, contudo, afirma que encerrou o empréstimo em janeiro de 2026, antes de Mendonça assumir a relatoria, e que aplicou os recursos exclusivamente nas atividades institucionais.
Da mesma forma, a Cedro nega qualquer vínculo empresarial entre seus negócios e Daniel Vorcaro. Assim, até o momento, os documentos e as manifestações públicas confirmam a existência do contrato entre o Iter e a empresa de Kallas, enquanto as partes apresentam suas próprias explicações sobre as relações empresariais citadas.

