
O mercado cinematográfico brasileiro questiona a viabilidade financeira de Dark Horse, o filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com produtores, diretores e empresários do setor ouvidos pela BBC News Brasil, o longa-metragem protagonizado é um erro do ponto de vista comercial.
A polêmica começou após revelações de que Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a obra. Além disso, o site The Intercept Brasil informou que parte dessa verba foi transferida para um fundo de investimentos gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.
Fracasso comercial do filme
Em um cálculo feito por especialistas consultados pela BBC, onde o filme gastaria apenas 15% da bilheteria com a distribuidora, a produção precisa arrecadar mais de R$ 300 milhões apenas para pagar o valor pedido a Vorcaro. Se somar os custos de produção com salários de atores e equipe técnica, a situação piora.
Para se pagar, Dark Horse teria que superar Divertidamente 2, a animação da Disney que detém o recorde histórico de arrecadação no Brasil com mais de R$ 400 milhões. Para alcançar a marca dos R$ 300 milhões, o longa precisaria atrair 15,1 milhões de espectadores aos cinemas, com o ingresso de R$ 19,88. Apenas cinco filmes atingiram esse patamar na história do país.
Falta de salas de cinema no interior
O projeto enfrenta também um obstáculo geográfico. Embora Bolsonaro tenha muitos eleitores, a maioria das salas de cinema do Brasil está concentrada no Sul e no Sudeste. O país possui hoje apenas 3.553 salas espalhadas por 419 cidades, deixando a maior parte dos municípios sem acesso às telas.
Um cruzamento de dados feito pela reportagem revela que nenhuma das duas dez cidades onde Bolsonaro obteve seu melhor desempenho eleitoral no segundo turno de 2022 possui uma sala de cinema. Nos estados majoritariamente bolsonaristas a situação se repete. Ou seja, Roraima possui apenas três cinemas funcionando, Rondônia tem nove e o Acre conta com apenas duas salas.
Ideologia acima do lucro
Profissionais do cinema explicam que empresários frequentemente investem em filmes sem buscar lucro imediato. Os objetivos reais costumam ser a vaidade pessoal ou o apoio a causas políticas, que neste caso serve para impulsionar a imagem de Jair Bolsonaro e a candidatura de Flávio à Presidência da República.
Os envolvidos defendem que Dark Horse foi feito para os cinemas aos moldes de Hollywood, mas o mercado já estuda o streaming como alternativa. O problema é que plataformas digitais pagam valores muito menores do que a bilheteria tradicional, o que não cobriria o gasto.
A produtora Go Up afirmou em nota que possui outros investidores sob contratos de sigilo, mas a BBC não obteve retorno sobre o orçamento total. Por fim, o filme segue sem previsão de lançamento e não tem registro na Ancine ou no Ministério da Justiça.

