
O desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC), João Marcos Buch, enviou nesta semana uma mensagem para uma das mães que perderam seus filhos durante as operações policiais no Rio de Janeiro de combate ao tráfico e ao crime organizado. “Dona Nice” ficou conhecida ao dar uma entrevista para uma emissora de TV, enquanto os corpos das vítimas eram recolhidos.
Buch se notabilizou durante o período em que atuou na Vara de Execuções Penais de Joinville, quando costumava enviar cartas a detentos e também a seus familiares.
A notícia de que o desembargador catarinense se comunicou com a moradora do Morro da Penha, no RJ, foi publicada em primeira mão nesta terça-feira (4) pela jornalista também catarinense Amanda Miranda, do portal ICL.
Na carta, Buch aponta que alguns dos direitos básicos dos moradores não foram respeitados durante a operação, que deixou mais de 120 pessoas mortas. Entre os pontos que, segundo ele, podem ter sido violados, estão o uso proporcional da força, a ausência de câmeras nas viaturas, a falta de um plano de reocupação de territórios invadidos por organizações criminosas e a entrada da Polícia Federal nas investigações contra milícias e tráfico de drogas interestadual e internacional.
Desembargador no TJSC
Ainda na carta, Buch se refere à operação como “chacina”, e aponta que suas consequências foram extremamente letais sobre as comunidades marginalizadas.
No texto, ele também questiona a “fórmula do confronto”, que considera “fadada ao fracasso”. “Por que é tão difícil que governos e autoridades entendam que somente políticas públicas inclusivas, articuladas à segurança pública, podem trazer benefícios reais para toda a sociedade?”.
Confira alguns trechos da carta reproduzida nas redes sociais do desembargados:
– Querida Dona Nice, escrevo-lhe com afeto e respeito. Meu nome é João Marcos, moro em Santa Catarina e trabalho com a Justiça. Sou desembargador, nome dado a juízes que atuam em recursos nos tribunais.
– Sua entrevista me marcou profundamente. Moradora desde sempre da Penha, a senhora disse que já não tinha mais esperança, que, nessa altura da vida, tendo visto tanta tragédia, tantas operações policiais, tantas pessoas próximas assassinadas, não acreditava mais que um dia a vida melhoraria.
– Eu sei que esta carta nunca chegará a seu destino, pois nunca a postarei. Impotente que sou para modificar um átomo de sua vida e para lhe oferecer uma centelha de esperança.
– Assim como nas favelas de Florianópolis, já estive em favelas do Rio; já me encharquei da beleza e da bondade de pessoas que tão bem me acolheram. E já testemunhei muita dor e injustiça.
Até quando?
– É desolador ouvir suas vozes celebrando a chacina. De onde vem esse ódio? De que veneno se alimentam esses seres humanos? Onde está sua bondade, sua compaixão?
– Por que é tão difícil que governos e autoridades entendam que somente políticas públicas inclusivas — de habitação, saneamento, saúde, educação, empregabilidade, cultura e lazer — articuladas à segurança pública, podem trazer benefícios reais para toda a sociedade?
– Mas o que isso importa, não é? A chacina já aconteceu, vidas foram ceifadas, até policiais morreram — e não consigo imaginar a dor das famílias que tiveram seus entes sequestrados de suas vidas para todo o sempre.

