
Uma menina chinesa de 6 anos morreu sete dias depois de receber uma terapia genética experimental para tratar uma condição neurológica rara. Agora, a Universidade Jiao Tong de Xangai e a revista científica Nature investigam a conduta dos pesquisadores responsáveis pelo procedimento.
A criança, identificada pelo nome fictício de Mei, recebeu o tratamento em março de 2025, no Hospital Xinhua, em Xangai. Entretanto, o caso só ganhou repercussão internacional em julho de 2026, depois que a revista Science e o site Retraction Watch divulgaram uma investigação conjunta.
Segundo a apuração, Mei foi a primeira pessoa no mundo a receber uma terapia de edição genética direcionada ao cérebro. O procedimento buscava tratar a síndrome de Snijders-Blok-Campeau, uma condição rara que afeta o desenvolvimento físico e cognitivo.
O que aconteceu após o procedimento?
A equipe liderada pelo neurocientista Zilong Qiu aplicou o tratamento diretamente no líquido que circula ao redor do cérebro e da medula espinhal. Para isso, os pesquisadores usaram vírus modificados para transportar uma ferramenta capaz de corrigir uma alteração específica no DNA.
Porém, sete dias depois da aplicação, Mei morreu após apresentar uma reação grave do sistema imunológico. Em seguida, o comitê de ética do hospital relacionou a morte ao tratamento.
A terapia teria provocado uma microangiopatia trombótica, condição que causa lesões nos pequenos vasos sanguíneos. Além disso, a menina apresentou sinais de comprometimento dos rins.
O problema aumentou as dúvidas sobre a segurança do experimento. Afinal, os testes realizados anteriormente em animais já haviam indicado riscos semelhantes.
Testes com animais já apontavam problemas
Antes de aplicar a terapia na criança, os pesquisadores testaram o procedimento em camundongos e primatas. Os primeiros resultados mostraram que a técnica conseguia alcançar as células do cérebro. No entanto, os exames também revelaram efeitos graves.
Todos os quatro macacos usados no estudo apresentaram lesões no fígado. Além disso, um dos animais desenvolveu danos nos rins.
Mesmo diante desses sinais, a equipe avançou com o tratamento em uma criança. Por isso, especialistas passaram a questionar a decisão dos pesquisadores.
Segundo cientistas ouvidos após a divulgação do caso, os resultados nos animais deveriam ter interrompido o experimento. Além disso, a síndrome de Mei causava limitações no desenvolvimento, mas não ameaçava a vida da menina naquele momento.
Família financiou desenvolvimento da terapia
Os pais de Mei procuraram o pesquisador em 2023, depois que a filha recebeu o diagnóstico. A partir disso, a família destinou cerca de US$ 860 mil para financiar os estudos, os testes em animais e o desenvolvimento do tratamento.
Entretanto, a investigação aponta que os pesquisadores não explicaram com clareza todos os riscos identificados nos testes com primatas.
Além disso, parte dos pagamentos teria passado por fundações, empresas e acordos informais ligados ao projeto. Agora, os investigadores também analisam a origem dos recursos e a forma como a equipe administrou o financiamento da pesquisa.
Artigo científico omitiu morte da menina
Em fevereiro de 2026, a revista Nature publicou um artigo da equipe de Zilong Qiu sobre os testes realizados em animais.
No entanto, o estudo não informou que os pesquisadores já haviam aplicado a terapia em Mei. O artigo também não mencionou a morte da criança nem a contribuição financeira feita pela família.
Além disso, uma versão preliminar do trabalho agradecia o apoio de famílias de pacientes e citava o uso do material genético de uma criança. Porém, a equipe retirou essas referências da versão publicada.
A Nature afirmou que não recebeu informações sobre a realização ou o planejamento de testes em seres humanos. Diante disso, a revista incluiu uma nota editorial no artigo e abriu uma investigação sobre os dados e as circunstâncias da pesquisa.
Universidade investiga pesquisadores
A Faculdade de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai também criou uma comissão especial para apurar o caso. A instituição pretende investigar possíveis falhas científicas, médicas e éticas.
Ao mesmo tempo, o Hospital Xinhua enfrenta questionamentos sobre a autorização e a fiscalização do procedimento.
Em 2025, autoridades locais multaram a unidade por falhas na supervisão e pela ausência de registro adequado do financiamento comercial da pesquisa.
Agora, o caso amplia o debate internacional sobre os limites da edição genética, principalmente quando cientistas testam procedimentos inéditos em crianças.
A tecnologia pode abrir novos caminhos para o tratamento de doenças raras. Porém, a ciência precisa colocar a segurança do paciente acima da pressa por resultados. Sem transparência, controle independente e responsabilidade, a busca por uma cura pode terminar em tragédia.

