
Médicos brasileiros criaram um tratamento inovador para crianças e adolescentes dependentes de telas. Com isso, o “Programa Elibrè para Dependências Digitais” passa a apoiar jovens que fazem uso prejudicial de tecnologias, especialmente jogos e redes sociais, com o objetivo de equilibrar essa relação.
A clínica Elibrè, centro de excelência em saúde mental em São Paulo, lançou uma linha de cuidado inédita no país para tratar dependências digitais. Nesse contexto, especialistas observam que o uso problemático da tecnologia cresce entre crianças, adolescentes e jovens adultos, enquanto muitas famílias ainda não sabem como agir.
Segundo o psiquiatra Arthur Guerra, os jovens passaram a tratar o celular como uma extensão do corpo. Embora muitos usem a tecnologia de forma saudável, uma parcela significativa desenvolve padrões patológicos. Além disso, ele destaca que casos de dependência já envolvem conflitos familiares intensos, com episódios de agressividade quando o acesso aos dispositivos é interrompido.
Casos extremos e falta de especialistas motivam criação do programa
Diante desse cenário, a equipe da Elibrè desenvolveu o programa após identificar o aumento de internações relacionadas ao uso excessivo de tecnologia e a escassez de profissionais especializados. Conforme o cofundador Mauricio Barbosa, alguns adolescentes chegam a evitar até necessidades básicas, como ir ao banheiro, para não interromper jogos.
O programa, portanto, acolhe jovens que utilizam telas de forma excessiva e enfrentam dificuldades para mudar esse comportamento sozinhos. Ainda assim, o psiquiatra Emílio Tazinaffo ressalta que nem todo uso intenso caracteriza dependência. Ele explica que o problema surge quando o indivíduo perde a capacidade de se autorregular, mesmo diante de prejuízos evidentes.
Além disso, a dependência se manifesta quando o uso da tecnologia compromete áreas importantes da vida, como desempenho escolar, relações sociais e convivência familiar. Nesses casos, o prejuízo se torna perceptível para todos ao redor, ainda que o próprio indivíduo não reconheça o problema.
Tratamento inclui imersão longe das telas e acompanhamento contínuo
A primeira edição do programa começa em abril de 2026, em São Paulo, com duração de 90 dias. Inicialmente, os participantes passam por uma triagem e, em seguida, iniciam um tratamento dividido em duas fases.
Na primeira etapa, os jovens participam de uma imersão intensiva de três dias, longe das telas e em contato com a natureza. Depois, eles retornam à rotina e seguem com acompanhamento multidisciplinar. Paralelamente, familiares participam de todas as fases, especialmente no caso de menores de idade.
Estratégia combina ciência, convivência e reconexão social
O programa combina diferentes estratégias terapêuticas já validadas cientificamente. Entre elas, estão psicoeducação, detox digital, jogos de tabuleiro, mindfulness e acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Dessa forma, os especialistas promovem tanto a conscientização quanto o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais.
Além disso, o contato com a natureza integra o tratamento, já que ambientes com menos estímulos ajudam a reduzir o estresse e favorecem a adesão às intervenções propostas.
Foco é uso saudável da tecnologia, não abstinência
Na fase seguinte, os participantes recebem acompanhamento contínuo, com psicoterapia individual e em grupo, incluindo também os familiares. Caso existam comorbidades, como TDAH, depressão ou ansiedade, a equipe também realiza o tratamento integrado dessas condições.
Por fim, os especialistas reforçam que o objetivo não é eliminar o uso de tecnologia, mas sim promover uma relação saudável e equilibrada. Segundo Tazinaffo, a proposta é desenvolver autonomia para que os jovens utilizem os recursos digitais de forma consciente, sem prejuízos à qualidade de vida.
Após a primeira edição, a equipe pretende expandir o programa para escolas, ampliando o alcance da iniciativa e fortalecendo a prevenção.

