
O médico e imunologista Anthony Fauci voltou ao centro da disputa política sobre a origem da Covid-19. Durante uma audiência no Senado dos Estados Unidos, ele se recusou a responder mais de 100 perguntas e invocou a Quinta Emenda da Constituição norte-americana, que garante o direito de não produzir provas contra si mesmo.
O senador republicano Rand Paul, presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais, convocou Fauci para explicar decisões tomadas durante a pandemia. Além disso, o parlamentar cobrou respostas sobre o financiamento de pesquisas com coronavírus realizadas na China.
Fauci, no entanto, afirmou que seguiu a orientação de seus advogados. Segundo o médico, os republicanos não buscavam apenas esclarecimentos. Na avaliação dele, o grupo tentava obter declarações que pudessem sustentar uma futura acusação criminal.
Por que Fauci decidiu permanecer em silêncio?
Logo no início da audiência, Fauci acusou Rand Paul de manter uma campanha para levá-lo à prisão. Por isso, o imunologista alegou que qualquer resposta poderia abrir espaço para acusações de falso testemunho ou contradição.
A Quinta Emenda permite que uma pessoa permaneça em silêncio quando acredita que determinada declaração pode provocar consequências criminais. No entanto, o uso desse direito não representa uma confissão de culpa.
Antes de deixar a Presidência, Joe Biden concedeu a Fauci um perdão relacionado a possíveis crimes federais cometidos durante o exercício de suas funções públicas. Ainda assim, a medida não protegeria o médico de uma eventual investigação sobre declarações falsas feitas posteriormente.
Diante desse cenário, Fauci decidiu não responder nem mesmo a perguntas consideradas simples. Rand Paul, por sua vez, afirmou que o comitê poderá analisar um processo por desacato ao Congresso.
Quem é Anthony Fauci?
Anthony Fauci comandou o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos entre 1984 e 2022. Durante quase quatro décadas, ele liderou pesquisas e políticas de enfrentamento ao HIV, à Aids, à tuberculose, à malária, ao Ebola, ao vírus Zika e à Covid-19.
Além disso, Fauci aconselhou sete presidentes norte-americanos, desde Ronald Reagan. Entretanto, ganhou projeção mundial em 2020, quando passou a integrar a força-tarefa da Casa Branca contra o coronavírus.
Durante o primeiro governo de Donald Trump, o médico participou frequentemente de entrevistas coletivas sobre a pandemia. Com o avanço da crise sanitária, porém, os dois passaram a divergir publicamente sobre o uso de máscaras, as restrições de circulação e outras medidas de prevenção.
Atualmente, Fauci atua como professor de medicina, doenças infecciosas e políticas públicas na Universidade de Georgetown.
O que os republicanos acusam?
Rand Paul e outros parlamentares republicanos acusam Fauci de ter mentido em depoimentos anteriores ao negar que o governo norte-americano financiou pesquisas de ganho de função no Instituto de Virologia de Wuhan.
Esses estudos modificam agentes infecciosos para avaliar como eles podem se espalhar ou provocar doenças. Entretanto, pesquisadores e autoridades adotam critérios diferentes para definir quais experimentos realmente se enquadram nessa categoria.
O governo dos Estados Unidos financiou a organização EcoHealth Alliance, que repassou parte dos recursos a estudos com coronavírus de morcegos realizados em Wuhan. Fauci, porém, sempre negou que esses experimentos pudessem ter produzido o vírus responsável pela pandemia.
Além disso, Rand Paul divulgou mais de mil páginas de anotações pessoais do médico. Segundo o senador, os documentos mostram diferenças entre as dúvidas que Fauci apresentava em conversas privadas e as posições que defendia publicamente.
Fauci rebateu essa interpretação. Segundo ele, as anotações apenas registram as incertezas que marcaram os primeiros meses de uma crise sanitária ainda desconhecida.
A origem da Covid-19 já foi esclarecida?
Até agora, nenhuma investigação comprovou de forma definitiva a origem do coronavírus.
Grande parte da comunidade científica considera mais provável que o vírus tenha passado de animais para seres humanos. Essa hipótese também aponta um mercado de Wuhan como possível local de disseminação inicial.
Por outro lado, alguns especialistas e órgãos norte-americanos defendem que as autoridades precisam continuar investigando a possibilidade de um acidente de laboratório.
Apesar das acusações, uma subcomissão do Congresso liderada por republicanos não encontrou provas que ligassem diretamente Fauci a alguma irregularidade relacionada à origem da pandemia.
Trump volta a atacar o médico
Donald Trump também voltou a criticar Fauci. Durante a audiência, o presidente afirmou que deixou de confiar no médico durante a pandemia por discordar das orientações sobre máscaras, fechamentos e restrições.
A relação entre os dois acumula conflitos desde 2020. Em janeiro de 2025, Trump retirou a proteção federal que Fauci recebia após ameaças contra sua vida. Desde então, o imunologista passou a contratar segurança particular.
Agora, o novo depoimento amplia uma disputa que ultrapassa o debate científico. De um lado, os republicanos cobram explicações sobre decisões tomadas durante a maior crise sanitária das últimas décadas. Do outro, democratas e integrantes da comunidade científica acusam os parlamentares de transformar Fauci em alvo de perseguição política.
Enquanto isso, a origem da Covid-19 continua sem uma resposta definitiva. O debate segue cercado por dúvidas científicas, interesses políticos e acusações que ainda precisam de comprovação.

