
A Polícia Federal indiciou 16 pessoas pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo após concluir o inquérito sobre a queda do avião da Voepass, ocorrida em agosto de 2024, no interior de São Paulo. A tragédia matou 62 pessoas e se tornou um dos acidentes mais graves da história da aviação comercial brasileira.
O anúncio ocorreu nesta quinta-feira (6), durante a apresentação do relatório final da investigação criminal conduzida pela PF. O documento analisou as circunstâncias que levaram à queda do ATR 72-500, prefixo PS-VPB, que fazia o voo 2283 entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP).
De acordo com a Polícia Federal, uma sequência de falhas envolvendo manutenção, procedimentos operacionais e decisões da tripulação contribuiu diretamente para o acidente.
PF aponta falhas graves antes da queda do avião
Durante a coletiva, Carlos Eduardo Palhares, diretor do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, afirmou que a investigação encontrou evidências de que a aeronave apresentava problemas conhecidos antes do voo que terminou na tragédia.
De acordo com a PF, os pilotos tinham conhecimento de falhas no sistema de degelo da aeronave, equipamento essencial para evitar o acúmulo de gelo durante o voo. Mesmo assim, o problema não teria sido informado corretamente à equipe de manutenção.
“Aqueles pilotos sabiam que aquele componente estava em falha. Era obrigação do piloto reportar o problema à manutenção”, afirmou, portanto, Palhares.
Ainda segundo o investigador, a aeronave não deveria ter realizado o voo nas condições apresentadas. Para a PF, a soma de falhas individuais e problemas estruturais dentro da operação da companhia criou um cenário de risco que terminou na queda.
O relatório técnico elaborado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) já havia apontado problemas semelhantes. O documento indicou que a empresa mantinha práticas inadequadas de manutenção, incluindo a substituição de peças defeituosas por componentes que também apresentavam falhas.
Além disso, os investigadores identificaram que voos anteriores já haviam registrado alertas relacionados ao sistema de degelo. Entretanto, os registros não seguiram os procedimentos exigidos pela legislação aeronáutica.

Acidente ocorreu minutos antes do pouso em São Paulo
O acidente aconteceu no dia 9 de agosto de 2024, durante a aproximação para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. O avião perdeu sustentação rapidamente e caiu em um condomínio residencial em Vinhedo, no interior paulista.
A aeronave transportava 58 passageiros e quatro tripulantes. Nenhuma das 62 pessoas a bordo sobreviveu.
A investigação do Cenipa analisou, ainda assim, 1.206 voos realizados pela aeronave desde agosto de 2023 até o dia da queda. O relatório concluiu que o acidente ocorreu após uma combinação de fatores envolvendo a companhia aérea, a tripulação e falhas na fiscalização.
Segundo o documento, a Voepass apresentou uma cultura operacional marcada pela informalidade, ausência de registros adequados e falhas no acompanhamento de procedimentos de segurança.
Os investigadores também apontaram falhas na supervisão realizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Apesar das fiscalizações anteriores, o relatório indicou que a agência poderia ter identificado problemas antes da tragédia.
A Anac informou que vai analisar as conclusões apresentadas e avaliar as recomendações relacionadas às suas atribuições. A agência destacou que a investigação do Cenipa possui caráter preventivo e busca identificar fatores que contribuíram para acidentes, sem definir responsabilidades criminais.
Com o indiciamento da Polícia Federal, o caso avança para uma nova etapa. Agora, o Ministério Público Federal deverá analisar o material e decidir se apresenta denúncia contra os envolvidos à Justiça.

