Região Blumenau

Gigante catarinense Teka projeta faturar R$ 720 milhões após falência

Empresa iniciou uma ofensiva comercial para ampliar sua margem e presença direta no varejo

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Gigante catarinense Teka projeta faturar R$ 720 milhões após falência
Foto dicvulgação

Uma das marcas mais tradicionais do setor têxtil brasileiro, a catarinense Teka projeta para 2026 um faturamento 44% superior ao ano passado. A projeção de crescimento da empresa, com sede em Blumenau, dos R$ 500 milhões de faturamento em 2025 para R$ 720 milhões este ano, está ancorada em um plano que busca ampliar a presença no mercado de cama, mesa e banho, no qual a marca ainda detém forte retorno junto ao consumidor nacional.

Uma das prioridades da companhia é a modernização de dois parques industriais, na ordem de R$ 50 milhões. “A renovação de equipamentos permitirá à Teka alcançar patamar tecnológico equivalente ao de seus principais concorrentes”, explicou Angelo Guerra Netto, integrante do Comitê de Reestruturação da empresa.

O executivo destacou ainda que a modernização deve ampliar a capacidade mensal de produção de 700 para 1,2 mil toneladas. O otimismo na empresa surge após o encerramento de um ciclo de instabilidade que quase culminou no fim de suas atividades no último ano. Fundada em 1926, a empresa tenta agora transformar a resolução de pendências judiciais e trabalhistas em combustível para uma retomada operacional definitiva.

Comando familiar

A história da Teka teve início com o imigrante alemão Hermann Kuehnrich, que fundou a tecelagem em Blumenau no início do século XX. Sob a gestão dos herdeiros dele, a marca viveu sua era de ouro entre as décadas de 1970 e 1990, consolidando-se como uma das maiores referências em artigos de cama, mesa e banho do país.

Mais do que uma potência industrial, a Teka tornou-se parte da identidade de Blumenau, chegando a motivar passeatas e manifestações populares de funcionários e consumidores em momentos em que o fechamento da fábrica parecia iminente. As transformações do mercado global e dificuldades de gestão levaram a companhia a um pedido de recuperação judicial em 2012.

Naquela época, o passivo circulava na casa dos R$ 780 milhões — valor que, após 13 anos de juros, multas e dívidas tributárias acumuladas, superaria os R$ 2 bilhões. Em 2017, a Justiça determinou o afastamento definitivo da família fundadora, e a operação passou a ser assistida por um interventor judicial.

Atualmente, o grupo mantém duas plantas fabris ativas — em Blumenau e também em Artur Nogueira, no interior de São Paulo, – que juntas empregam cerca de 2 mil colaboradores. Um dos trunfos da empresa para manter as máquinas girando é a sua forte atuação no mercado B2B: cerca de 70% do faturamento vem do atendimento a mais de 5 mil hotéis e hospitais em todo o Brasil, incluindo grandes redes como Accor e Slaviero.

O “fator 2025”: do risco de fechamento à falência

O ano de 2025 registrou o episódio de maior impacto jurídico desde o início do processo de recuperação da Teka. Em 27 de fevereiro do último ano, o juízo da Vara Regional de Falências de Jaraguá do Sul converteu a recuperação judicial em falência.

A sentença fundamentou-se no entendimento de que o processo não atingia seus objetivos, citando o crescimento do passivo tributário para a marca de R$ 3,5 bilhões em impostos devidos apenas à União. A decretação da falência colocou sob regime de liquidação os ativos das unidades produtivas da indústria.

A defesa da companhia e acionistas, como o fundo Alumni, recorreram da decisão, argumentando que a administração judicial não teria utilizado mecanismos legais disponíveis, como programas de parcelamento de dívidas federais e estaduais, que poderiam reduzir o passivo tributário para patamares substancialmente menores.

Em março de 2025, a 1ª Câmara de Direito Comercial do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) acolheu o recurso do fundo Alumni, suspendendo a decisão de falência. A liminar foi o que devolveu à Teka o status de empresa em recuperação, afastando o risco de liquidação iminente.

Ao conceder a suspensão, o desembargador Robson Luz Varella considerou que o processo apresentava informações incongruentes e que a decretação da quebra foi prematura. Na decisão, o magistrado pontuou que era inviável obter qualquer conclusão definitiva sobre a real condição econômico-financeira da companhia antes do término de auditorias completas. Para o relator, a necessidade de averiguação do estado de insolvência deveria preceder a quebra, priorizando a busca pela capacidade de recuperação da empresa.

A defesa apontou ainda que os resultados da Teka em 2024 indicavam melhora no desempenho operacional frente aos concorrentes do setor têxtil. Outro ponto central foi a crítica à gestão do passivo tributário: os advogados sustentaram que a dívida de aproximadamente R$ 2,3 bilhões poderia ter sido reduzida para cerca de R$ 330 milhões caso houvesse a adesão tempestiva a programas de parcelamento.

Um dos sinais de que a empresa começou a entrar nos trilhos veio em novembro do ano passado, com a formalização de um acordo trabalhista de R$ 70 milhões. O entendimento coloca fim a disputas judiciais de mais de uma década e abrange 2.333 trabalhadores e ex-trabalhadores das unidades de Blumenau, Artur Nogueira e da unidade inativa de Indaial.

Os recursos para os pagamentos iniciais são provenientes de fundos existentes em contas judiciais vinculadas ao processo de recuperação. Na primeira etapa, cada beneficiário receberá até R$ 10 mil. Créditos que excedem esse patamar serão parcelados em até 36 meses, tendo como garantia imóveis não operacionais da empresa disponibilizados para venda.

O diretor-presidente da Teka, Rogério Aparecido Marques, destacou na ocasião o empenho da gestão em pacificar esse passivo. “A Teka priorizou a dívida trabalhista e está empenhada em fazer esse processo de quitação de forma ágil e transparente”, afirmou em novembro.

Segundo o executivo, saldos remanescentes da venda de ativos serão utilizados para antecipar a quitação do FGTS junto à Caixa Econômica Federal. A conciliação foi homologada nos Tribunais Regionais do Trabalho da 15ª Região (Campinas-SP) e da 12ª Região (SC).

Paralelamente ao reequilíbrio das contas, a Teka iniciou uma ofensiva comercial para ampliar sua margem e presença direta no varejo. A estratégia envolve o lançamento de um e-commerce próprio e a abertura de lojas físicas, como a unidade inaugurada no Outlet Premium de Itupeva (SP).

“A nossa expectativa é encerrar um capítulo longo e difícil e entrar em 2026 preparados para competir de igual para igual com o mercado”, afirmou Angelo Guerra Netto, do Comitê de Reestruturação da empresa. No ano do seu centenário, comemorado em maio, o objetivo da fabricante é retomar o espaço histórico que ocupou. “Queremos voltar a ter os produtos da Teka presentes nas casas da maioria dos brasileiros e seguir adiante de forma sustentável”, disse Guerra Netto.

Róbinson Gambôa

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Róbinson Gambôa

Experiênte jornalista, atua na região da Grande Florianópolis, se dedicando aos factuais do dia a dia e também a matérias mais autorais com foco em temas diversos. Entre suas especialisdades está a editoria de política e segurança publica. Gambôa também contribui com conteúdo esportivo.

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