Região Blumenau

Arquivo Histórico recebe escritas em alemão de preso político de 1930

Papéis já estão disponíveis para pesquisa

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Arquivo Histórico recebe escritas em alemão de preso político de 1930
Fotos: Divulgação/Arquivo Histórico

O Arquivo Histórico José Ferreira da Silva recebeu um texto original escrito em alemão, em sete folhas de papel higiênico, que conta as memórias do blumenauense Julio Baumgarten. Um item importante para o acervo e que conta um pouco do retrato do Brasil e de Blumenau no fim da década de 1930.

Júlio foi preso em 28 de setembro de 1938, acusado de integrar o “movimento subversivo” da Ação Integralista Brasileira (AIB), conhecido como Camisas-Verdes – aquele que tentou um golpe de Estado para tentar derrubar o então presidente Getúlio Vargas.

Os papéis já estão disponíveis para pesquisa, de segunda a sexta-feira, das 8 às 12h e das 13h30 às 17h, no Arquivo Histórico (Alameda Duque de Caxias, 64, Centro). “São relatos que expõem momentos difíceis e controversos da formação da República e nos permitem uma reflexão crítica sobre o passado”, menciona o secretário municipal de Cultura e Relações Institucionais, Sylvio Zimmermann Neto.

“A grandeza da mensagem aliada à humildade da forma do registro, em um papel higiênico, só reforçam a capacidade do ser humano de resiliência e superação e nos desperta uma grande curiosidade sobre o tema e o desfecho dessa história”, conclui o secretário.

O documento histórico

Documento histórico estava em uma caixa de charutos.

Esses papéis, escritos a lápis, estavam guardados dentro de uma caixa de charutos Dannemann de São Félix (BA), esquecida no fundo de um armário. Baumgarten escreveu os relatos entre os dias 3 e 7 de outubro de 1938.

Nas escritas, portanto, ele conta como foi a chegada à sede da polícia na Capital, a primeira refeição à base de arroz e alguns pedaços de carne. Além disso, mostra as formalidades para o ingresso na penitenciária, a liberação dos pertences e o tratamento recebido dos agentes. Diz que ficou em uma cela de 8 metros quadrados e que dormiu em uma cama “dura como madeira”.

Contudo, no pequeno espaço tinha uma lâmpada elétrica que “ficava queimando a noite toda”, uma pia e o vaso sanitário. Ele conta das noites mal dormidas e que o despertar de todos ocorria às 5h após cinco batidas de um sino. Nas folhas de papel escreveu: “Às 6h serviam uma xícara de café repugnantemente doce, com pão, que não era muito ruim. Ao meio dia, era hora do prato de feijão com arroz e carne”.

E o relato escrito em alemão no papel higiênico, traduzido por Clarisse Odebrecht, segue de maneira clara: “Para adaptar completamente a nossa aparência ao ambiente, ganhamos um terno de zebra, ou seja, pijamas listrados de branco e azul. Tamancos de madeira e chapéus parecem estar em falta, pois fomos poupados deles. Às 17h, tomamos café com biscoito e às 19h o mesmo, e chega novamente a noite sem fim”.

Documento já está disponível para apreciação.

Em 27 de outubro de 1938, Baumgarten, Alberto Dietrichkeit, Osvaldo Bürguer, Curt Boehme e Emmanuel Ehlers, presos em Florianópolis, foram soltos. Detalhes sobre o movimento integralista podem ser encontrados na tese de doutorado de Clayton Hackenhaar. Ela foi apresentada em 2019 ao programa de pós-graduação em História, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Por fim, sob o título “O integralismo em Santa Catarina e a tentativa de golpe em março de 1938”, o trabalho relacionou relatos e publicações da imprensa na época.