
Nesta terça-feira (14) foi divulgado que clínicas de estética dos Estados Unidos começaram a usar gordura retirada de cadáveres para preencher partes do corpo de pacientes que perderam muito peso. O procedimento ganhou força em 2026, principalmente entre pessoas que emagreceram com medicamentos como Ozempic e Wegovy.
O produto, chamado alloClae, promete devolver volume aos seios, glúteos, quadris, mãos e outras regiões. Além disso, a técnica dispensa a retirada de gordura do próprio paciente. Por isso, médicos apresentam o tratamento como uma alternativa menos invasiva aos implantes e aos enxertos tradicionais.
No entanto, o avanço do procedimento também acendeu um alerta. Especialistas questionam a falta de estudos clínicos de longo prazo. Além disso, bioeticistas cobram mais transparência sobre a origem dos tecidos e sobre o consentimento dos doadores.
Canetas emagrecedoras mudam mercado estético
Os medicamentos da classe GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade. Eles reduzem o apetite e aceleram a perda de peso. Porém, o corpo não escolhe onde eliminar gordura.
Assim, muitos pacientes perdem volume no rosto, nos seios, nos braços e nos glúteos. Além disso, a pele pode ficar flácida depois de uma redução rápida de peso.
Por causa disso, clínicas passaram a oferecer tratamentos para reconstruir o contorno corporal. Nesse cenário, o alloClae encontrou espaço.
Segundo a fabricante Tiger Aesthetics, mais de 2 mil pacientes receberam o produto desde maio de 2025. A empresa aposta, sobretudo, em pessoas que emagreceram muito e não possuem gordura suficiente para realizar um enxerto convencional.
Ao mesmo tempo, cirurgiões plásticos observam uma nova demanda nos consultórios. Pacientes que antes buscavam apenas emagrecer agora procuram recuperar o volume perdido.
Produto elimina etapa da lipoaspiração
No enxerto tradicional, o médico primeiro retira gordura do próprio paciente por meio de uma lipoaspiração. Depois, ele processa o material. Por fim, injeta a gordura em outra parte do corpo.
Já o alloClae encurta esse caminho. A empresa fornece o tecido pronto para aplicação. Com isso, o médico não precisa retirar gordura do paciente.
A fabricante coleta o material de corpos doados. Em seguida, processa, limpa e esteriliza o tecido. Segundo a Tiger Aesthetics, o produto não contém células vivas e preserva parte da estrutura natural da gordura.
Além disso, a técnica pode beneficiar pacientes muito magros. Essas pessoas, muitas vezes, não possuem reservas suficientes para realizar uma lipoaspiração.
O procedimento também costuma durar menos de uma hora. Em geral, o paciente não precisa receber anestesia geral. Portanto, a recuperação tende a ser mais rápida.
Contudo, o tratamento custa caro. Uma única seringa pode custar cerca de US$ 2.250. Dependendo da área tratada, o valor total pode chegar a dezenas de milhares de dólares.
Paciente relata dor e necrose
Apesar da praticidade, o procedimento pode provocar complicações.
Uma paciente de Los Angeles pagou US$ 13 mil para aplicar o produto nos seios. Cerca de dois meses depois, ela começou a sentir dores. Logo depois, também percebeu mudanças na cor da pele e o surgimento de nódulos.
O médico diagnosticou necrose gordurosa. Ou seja, parte da gordura morreu dentro do tecido. Depois disso, a paciente precisou drenar cistos. Além disso, passou a avaliar uma cirurgia para retirar resíduos do produto.
A Tiger Aesthetics afirma que não registrou casos confirmados de rejeição ou infecção relacionados ao alloClae. Entretanto, a própria empresa reconhece possíveis efeitos adversos.
Entre os riscos estão dor, hematomas, cistos, nódulos, infecção, alergias e alterações na cor da pele.
Além disso, médicos lembram que o enxerto com gordura do próprio paciente também pode causar necrose. Porém, os pesquisadores ainda não reuniram dados suficientes para comparar as duas técnicas.
Por isso, alguns cirurgiões evitam usar o produto. Eles defendem mais testes independentes, mais acompanhamento clínico e mais informações sobre os resultados de longo prazo.
Origem do material levanta debate ético
O uso de gordura de cadáveres também abriu uma discussão ética.
Nos Estados Unidos, a legislação trata a doação de corpos de forma diferente da doação de órgãos. Além disso, o país não mantém um sistema federal único para fiscalizar todas as instituições que recebem corpos para pesquisa, ensino ou produção de tecidos.
A Tiger Aesthetics afirma que compra o material apenas de bancos ligados à Association for Advancing Tissue and Biologics. A entidade estabelece padrões para coleta, armazenamento, processamento e distribuição de tecidos humanos.
Ainda assim, especialistas questionam os termos usados nos documentos de consentimento. Muitas famílias autorizam o uso do corpo para pesquisa, educação ou medicina. Porém, nem sempre recebem uma explicação direta sobre a possível utilização do tecido em procedimentos estéticos comerciais.
Assim, bioeticistas defendem formulários mais claros. Para eles, o doador e a família precisam saber, com precisão, como empresas poderão usar cada parte do corpo.
Além disso, os críticos cobram transparência sobre o lucro gerado com esses tecidos. Afinal, clínicas e fabricantes podem cobrar milhares de dólares por um material que nasceu de uma doação.
Produto enfrenta disputa regulatória
O alloClae também enfrenta questionamentos legais no estado de Nova York.
As autoridades estaduais negaram licenças ligadas à distribuição do produto. O governo local quer saber se a empresa cumpre todas as exigências sanitárias.
Em resposta, a Tiger Aesthetics acionou a Justiça. A fabricante afirma que o estado não possui autoridade para impedir a comercialização.
Enquanto a disputa continua, clínicas de outras regiões mantêm as aplicações. Ao mesmo tempo, mais pacientes demonstram interesse pelo tratamento.
O crescimento do produto mostra como as canetas emagrecedoras também transformaram a cirurgia plástica. Primeiro, os medicamentos aceleraram a perda de peso. Agora, a indústria estética oferece soluções para recuperar o volume eliminado.
No entanto, o paciente precisa agir com cautela. Antes da aplicação, deve perguntar sobre a origem do material, os riscos, a experiência do médico e os estudos disponíveis.
Além disso, deve desconfiar de promessas fáceis. Afinal, um procedimento rápido não significa um procedimento sem risco.

