
Enquanto o Banco Master manteve por quase dois anos um contrato milionário com o escritório do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski, mesmo após ele assumir o comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou posturas contraditórias em relação à instituição.
Ao mesmo tempo em que passou a atacar publicamente o banco e seu controlador, Daniel Vorcaro, o petista recebeu o banqueiro em uma reunião sem registro oficial no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024.
Assinado em 28 de agosto de 2023, o contrato permaneceu em vigor até setembro de 2025, período em que Lewandowski já ocupava o ministério havia 21 meses. Ao todo, o banco desembolsou cerca de R$ 6,5 milhões brutos, sendo R$ 5,25 milhões pagos depois da posse do ex-ministro no MJSP, em janeiro de 2024.
Indicação política e manutenção do vínculo
A contratação do escritório atendeu a uma indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). Procurado, Wagner confirmou ter sugerido o nome de Lewandowski ao Banco Master. O senador também teria indicado o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega à instituição financeira, embora negue essa segunda indicação.
Assim, a relação entre o banco e figuras históricas do PT se consolidou em um momento sensível, marcado por investigações, questionamentos regulatórios e críticas públicas ao controlador da instituição.
Saída formal e continuidade prática
Ao aceitar o convite para integrar o governo Lula, Lewandowski deixou formalmente a sociedade do escritório de advocacia em 17 de janeiro de 2024. Desde então, a banca passou a ser administrada exclusivamente por seus filhos, Enrique de Abreu Lewandowski e Yara de Abreu Lewandowski.
Apesar da saída formal, o contrato com o Banco Master seguiu ativo, sem interrupções nos pagamentos. Com isso, a maior parte dos valores foi quitada quando o ex-ministro já exercia função pública de alto escalão.
Baixa participação e entregas questionadas
Entre as atribuições previstas no contrato estava a participação do escritório nas reuniões do Comitê Estratégico do Banco Master. No entanto, durante todo o período do acordo, Lewandowski compareceu a apenas duas reuniões, segundo apuração.
Após a ida do ex-ministro para o MJSP, a representação passou a ser feita por seu filho, Enrique Lewandowski. Ainda assim, de acordo com informações levantadas, não houve entregas relevantes ao banco, apesar da manutenção integral dos pagamentos mensais.
O que diz o ex-ministro
Em nota Ricardo Lewandowski afirmou que deixou o escritório assim que aceitou o convite para o Ministério da Justiça. Segundo o comunicado, após deixar o STF em abril de 2023, ele retornou à advocacia. E portanto, prestou serviços de consultoria jurídica ao Banco Master, entre outros clientes.
“O ministro Ricardo Lewandowski, depois de deixar o Supremo Tribunal Federal, retornou às atividades de advocacia. Além de vários outros clientes, prestou serviços de consultoria jurídica ao Banco Master”, informou a nota.
Lula criticou dono do Banco Master, mas teve reunião sem agenda oficial com Vorcaro e Mantega
Apesar do tom duro adotado publicamente contra o Banco Master, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou de uma reunião sem registro oficial com o controlador da instituição, Daniel Vorcaro, no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro de 2024.
Historicamente ligado a quadros centrais do PT — como Ricardo Lewandowski, indicado por Lula ao STF em 2006 — o banco passou a ser alvo de críticas diretas do presidente. Em evento recente em Maceió (AL), Lula afirmou que “falta vergonha na cara” para quem defende Vorcaro e acusou o Master de causar um rombo de mais de R$ 40 bilhões.
“Não é possível continuar vendo o pobre ser sacrificado enquanto um cidadão, como esse do Banco Master, deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”, disse o presidente.
Encontro fora da agenda presidencial
Mesmo assim, semanas antes da declaração pública, Lula recebeu Vorcaro em uma reunião que não consta na agenda oficial da Presidência. O encontro ocorreu logo após uma audiência formal registrada na agenda do chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
Essa audiência, marcada para 27 de dezembro de 2024, registrou apenas a presença de Guido Mantega, listado como representante de interesse próprio. Ao final da conversa, Mantega e Vorcaro solicitaram uma reunião direta com o presidente, que aceitou recebê-los imediatamente.
Participação de ministros e ausência de registro
A conversa ocorreu no gabinete presidencial e contou com a presença do ministro da Casa Civil, Rui Costa. Além disso, estava Gabriel Galípolo, então indicado para a presidência do Banco Central, chamado por Lula para integrar a reunião.
Mesmo realizada dentro do Palácio do Planalto e com a participação de ministros, a reunião não foi registrada nos compromissos oficiais do presidente. Dessa forma levanta questionamentos sobre transparência e coerência entre o discurso público e a prática institucional.

