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Fernando Lemos: exposição no IMS revela o surrealismo contra as ditaduras

Fernando Lemos ganha mostra no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, com mais de 400 obras que relacionam surrealismo, liberdade e ditadura.

Fernando Lemos: exposição no IMS revela o surrealismo contra as ditaduras

Uma exposição no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, reúne mais de 400 obras de Fernando Lemos e apresenta como o artista luso-brasileiro usou o surrealismo para enfrentar, pela arte, a atmosfera de repressão vivida em Portugal e no Brasil. A mostra, aberta no momento em que se celebra o centenário de nascimento do fotógrafo, reúne imagens, pinturas, poemas e desenhos.

O que a mostra de Fernando Lemos revela?

Intitulada “Quanto Mais Desejo, Mais Invento O Que Vejo”, a exposição concentra parte importante da produção de Fernando Lemos, morto em 2019, aos 93 anos. O conjunto evidencia uma obra marcada pela combinação entre experimentação visual, interesse pelo inconsciente e crítica aos ambientes autoritários.

As fotografias produzidas entre 1949 e 1952 retratam um Portugal dominado pela ditadura de António de Oliveira Salazar. Em vez de registrar a realidade de maneira direta, Fernando Lemos recorre a sombras, distorções e cenas ambíguas para construir uma sensação constante de ameaça. Portas, janelas, manequins e figuras humanas aparecem como elementos de um mundo instável, cercado por incertezas.

O resultado é uma fotografia que transforma o medo político em linguagem visual. Ao mesmo tempo, as imagens preservam a ideia de que a imaginação pode abrir uma saída diante da opressão, criando outras formas de perceber o cotidiano.

Como Fernando Lemos relacionava arte e liberdade?

Para Thyago Nogueira, curador da exposição, o artista desenvolveu uma linguagem voltada à liberdade e usou a criação para enfrentar diferentes formas de repressão. “Ele se dedicou a pensar um vocabulário da liberdade e a libertar a gente das repressões através da arte”, afirma.

O surrealismo teve papel central nesse processo. O movimento buscava explorar o sonho e o inconsciente, colocando em dúvida a lógica convencional. Fernando Lemos chamava de “desocultação” o esforço de trazer à superfície aquilo que permanecia escondido na mente e na experiência humana.

Uma das obras apresentadas na mostra resume essa estratégia. Nela, um ambiente escuro recebe luz apenas pela abertura parcial de uma porta. A composição sugere a passagem para um espaço desconhecido e convida o observador a completar, com a própria imaginação, aquilo que a fotografia não revela.

Qual é a dimensão política do surrealismo?

Na leitura do curador, Fernando Lemos não tratava o surrealismo apenas como um recurso estético ou como uma forma de representar sonhos. O artista também transformou o movimento em instrumento de contestação diante das ditaduras portuguesa e brasileira.

“Ele sai da questão de ser só um lugar de criação artística e de imaginação para entender o surrealismo como uma estrutura de crítica aos contextos ditatoriais, tanto do Brasil quanto de Portugal”, diz Thyago Nogueira.

Essa abordagem aparece em trabalhos que misturam autorrepresentação, objetos e formas indefinidas. Em “Eu, Poeta”, por exemplo, o artista surge deitado no chão, com o rosto envolvido por um material que se confunde com uma massa de pensamentos. A imagem desloca a figura humana do registro documental e a transforma em uma cena de tensão psicológica.

Ao aproximar fotografia, pintura, desenho e poesia, a exposição mostra que a produção de Fernando Lemos não se limita a um único suporte. O conjunto também reforça a importância do artista para o surrealismo na fotografia e apresenta sua obra como uma investigação permanente sobre medo, desejo, memória e liberdade.

A mostra no Instituto Moreira Salles oferece, assim, um panorama da trajetória de Fernando Lemos e evidencia como sua produção artística atravessou fronteiras entre Portugal e Brasil. Mais do que reconstruir um período histórico, as obras expõem os mecanismos de ocultamento e sugerem que inventar novas imagens pode ser uma forma de resistir.