Região Grande Florianópolis

Exposição de arte em Florianópolis expõe a voz e a mudez feminina

“Língua Louca” traz pinturas, vídeos, instalações e performances

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Exposição de arte em Florianópolis expõe a voz e a mudez feminina
Foto: divulgação

“Língua louca”, exposição da artista Letícia Cardoso, abre nesta sexta (12), na Fundação Cultural BADESC, em Florianópolis. Com temática forte, que dialoga com o discurso feminista, comportamento humano e psicanálise, a obra se materializa no hibridismo da linguagem contemporânea em que a escrita é contaminada pela cor e o vídeo pela pintura.

O projeto Língua Louca discute a temática que rodeia o imaginário estereotipado do “feminino histérico”, produzindo respostas com a linguagem artística frente a uma luta histórica contra a violência impressa nos corpos femininos. A artista visita o conceito de histeria, doença descrita pelo médico e cientista francês Jean-Martin Charcot no século 19 que patologiza as mulheres, essas submetidas a tratamento e que, muitas vezes, apaixonavam-se pelos médicos e correspondiam às expectativas de seu imaginário acerca dos sintomas.

“Hoje falamos em homens histéricos também. Este termo no manual de doenças nos anos 60 associa-se a doenças psicossomáticas. O deslocamento do nome ocorre aliado ao trabalho das mulheres artistas e feministas. É uma conquista histórica de liberdade”, explica Letícia Cardoso.

A instrumentalização do discurso feminista, a produção de artistas mulheres e a vida da artista numa intensa pesquisa sobre a voz e a mudez feminina permeiam o trabalho de Letícia Cardoso.

Pastel Seco

“A articulação da língua louca para mim também é uma resistência à submissão feminina em  tentar corresponder a uma imagem idealizada como mulher. Acredito na arte contemporânea como uma estratégia criativa para reagir a este estereótipo ainda impresso na linguagem”, salienta ela.

Ocupando o Espaço Paulo Gaiad da Fundação Cultural BADESC, a artista apresenta pinturas em pastel seco sobre papel e tinta à óleo sobre tela.  Com elementos pictóricos que transitam entre cores quentes e frias, suas pinturas carregam memórias e sonhos, em palavras que são rasuradas, escritas e apagadas com as mãos.

São vários os momentos em que a artista abandona o pincel, trabalhando no chão e na parede, deixando transparecer pegadas e manchas nos papéis. A linguagem pictórica se mescla com fragmentos de leituras, pensamentos e escritos que se formam e se apagam em um movimento contínuo.

A exposição tem ainda vídeos, instalações e performances que se desdobram em narrativas e ficções.  É parte do projeto Língua Louca, aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura Municipal (Fundação Franklin Cascaes), que conta com uma exposição, uma publicação e uma oficina para mulheres vítimas de violência na Ilha de Santa Catarina. A oficina com outras mulheres visa amparar e empoderar as vítimas de violência.

O projeto Língua Louca tem Apoio Cultural da Duda Imóveis, Apoio da Alecrim Conteúdo e da Fundação Cultural BADESC. O patrocínio é da Prefeitura Municipal de Florianópolis, Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte e Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Florianópolis. A produção é do Studio de Ideias Produtora Cultural.

Processo criativo

As pinturas de Letícia Cardoso neste trabalho são movidas por um raciocínio ficcional presente em sua tese “Sono Histérico: as personagens Rosa e a Ruinóloga Visual como procedimento de investigação da prática artística”, realizada no Doutorado em Artes Visuais na Universidade do Estado de Santa Catarina (CEART/UDESC) defendida em 2022. Durante os quatro anos de pesquisa, a artista teceu relações entre arte contemporânea, feminismo, ficção e psicanálise. Utilizou os sonhos como processo de criação e a escrita de cartas tentando encontrar respostas para sua angústia como mulher, artista e pesquisadora.

De agosto de 2017 até setembro de 2018, Letícia Cardoso conviveu com a estrutura arquitetônica do Sobrado na Ladeira, casa do século 19. Ali deu seus mergulhos naquela época e na construção dos personagens Rosa, Ruinóloga Visual e seu psicanalista. Usou a  ficção como um deslocamento para acessar o passado coletivo e pessoal e reinventar seu presente.

“Ficava pensando em como seria viver no século 19 como mulher em Florianópolis fora dos padrões normativos na época. E esse questionamento veio num momento em que eu, Letícia, com 40 anos, mãe solo, com filho em idade de alfabetização, dava aula na Udesc e escrevia minha tese durante a pandemia e vivenciava desilusões amorosas meio perdida nos amores líquidos ”, conta Letícia.

O porão do Sobrado virou espaço de trabalho. Rosa, muda ou silenciada, rasurava as paredes do porão e, por meio da personagem, a artista deu vida à obra e escreveu como a Ruinóloga Visual uma especialista em ruinologia, conceito retirado da obra “A Ruinologia” de Raul Antelo.

Foto: divulgação

Frase torta

“O desejo era dar voz às mulheres silenciadas por um diagnóstico médico ao ouvir ruídos que o Sobrado teria sido no século XIX e XX uma clínica para tratamento de histeria. No primeiro dia no Sobrado, escrevi em uma das paredes: o amor romântico foi dormir, acordou molhada. Após inscrever a frase torta na parede rugosa, o desejo de apagar e silenciar essa informação se manifestou com a mão esquerda”, conta a artista sobre seu fazer artístico, entendo que ali o irracional vaza, o que escapa do controle racional aparece e denuncia a angústia.

“A arte, para mim, permite escuta e trabalho para questões que atravessam meu corpo como mulher. O amor romântico e o conceito de histeria são criados no século XIX e ambos colocam a mulher idealizada em destaque seja por seu silêncio ou sua língua louca. Duas formas de normatizar o comportamento feminino e o masculino, acho que vivemos num momento de reinvenção destes padrões que contaminam os afetos e as respostas. A arte, para mim, possibilita a escuta  do que me angustia e aponta resistências na minha história pessoal e a pesquisa na coletiva. A língua louca, para mim,  resiste em submeter-se à língua comum”, afirma a artista.

O trabalho, relata Letícia Cardoso, é para resistir como mulher, para organizar afetos, os conteúdos lidos e vividos como mãe, mulher de 45 anos e artista contemporânea no contexto da Ilha de Santa Catarina.

“O projeto aprovado e lutado por 3 anos é minha resistência para seguir existindo e apostando no jogo da arte”, afirma.

Sobre a artista

Letícia Cardoso é artista visual representada pela Galeria Helena Fretta e, atualmente, professora colaboradora de Pintura na UDESC. Graduada em Artes Plásticas na UDESC em 2001, mestre em Poéticas Visuais UFRGS em 2005 e doutora em Artes Visuais pela UDESC em 2022.  Participou do 32 Panorama das Arte Brasileira (2012), premiada com a Bolsa Iberê Camargo de intercâmbio para artistas, em Austin, Texas, (2009); pelo Programa Rumos Itaú Cultural em (2001/2003), entre outros.

Serviço

O que: Exposição “Língua Louca”, de Letícia Cardoso

Abertura: sexta (12), às 19h

Visitação de 15 a 31 de janeiro de 2024

Local: Fundação Cultural BADESC – Rua Visconde de Ouro Preto, 216 – Centro – Florianópolis.

Róbinson Gambôa

Sobre o autor

Róbinson Gambôa

Experiênte jornalista, atua na região da Grande Florianópolis, se dedicando aos factuais do dia a dia e também a matérias mais autorais com foco em temas diversos. Entre suas especialisdades está a editoria de política e segurança publica. Gambôa também contribui com conteúdo esportivo.

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