
O trabalho de entrega por aplicativo expõe milhares de profissionais a situações de violência, ameaças e discriminação. Entre janeiro e julho deste ano, por exemplo, o iFood registrou 1.188 relatos de violência envolvendo entregadores no país. Com isso, a plataforma contabilizou uma média de 5,6 ocorrências por dia no Brasil.
Entre os casos com motivação identificada, discriminação e ameaça lideram os registros. Juntas, essas situações representam cerca de três em cada quatro queixas. Já as agressões físicas correspondem a aproximadamente 25% dos relatos. Além disso, um mesmo episódio pode envolver diferentes tipos de violência.
Ofensas e agressões durante as entregas
Na prática, os casos mostram que os conflitos surgem em diferentes momentos do serviço. Em março, por exemplo, um entregador de aplicativo sofreu ofensas durante uma entrega no Distrito Federal. Na ocasião, o cliente teria se irritado após alegar que faltava um refrigerante no pedido.
Enquanto isso, em São Paulo, trabalhadores denunciaram episódios de violência no Metrô Santo Amaro. Segundo os relatos, agentes de segurança teriam ameaçado entregadores e provocado danos em bicicletas. Além disso, um dos casos envolveu uma denúncia de enforcamento.
Já em Fortaleza, uma discussão sobre o pagamento de uma entrega terminou com um trabalhador ferido. Nesse caso, o entregador sofreu um corte na cabeça durante a confusão, registrada em agosto de 2025.
Outro episódio ocorreu em Goiânia, em novembro de 2025. Após um desentendimento sobre a entrega, uma servidora do Tribunal de Justiça de Goiás, segundo o relato divulgado na época, deu tapas no rosto de um motoboy.

Casos ganharam repercussão nacional
Além dos registros recentes, a violência contra entregadores já provocou grande repercussão no país. Em 2020, por exemplo, Matheus Pires Barbosa, de 19 anos, sofreu ofensas racistas durante uma entrega em Valinhos, no interior de São Paulo.
Na ocasião, o episódio começou após um desentendimento com o cliente, quando o jovem tentou deixar uma encomenda na portaria do imóvel.
Anos depois, em 2023, outro caso ganhou destaque no Rio de Janeiro. Dessa vez, o entregador Max Ângelo dos Santos sofreu agressões durante uma ocorrência envolvendo uma moradora.
Por outro lado, também existem registros pontuais de conflitos nos quais entregadores aparecem como autores de agressões contra terceiros. Ainda assim, os dados apresentados pelas plataformas concentram os relatos analisados em situações nas quais os trabalhadores aparecem como vítimas.
Mais de 376 mil trabalham como entregadores
O cenário ganha ainda mais dimensão diante do tamanho do setor. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha cerca de 1,95 milhão de trabalhadores por meio de plataformas digitais em 2025.
Desse total, 585 mil utilizavam aplicativos para realizar entregas de alimentos, produtos e outros itens. Além disso, o levantamento identificou 376 mil pessoas especificamente na atividade de entrega.
Plataformas anunciam medidas de segurança
Diante do volume de ocorrências, o iFood criou uma Política de Combate à Discriminação e Violência. A iniciativa oferece, assim, suporte psicológico e jurídico gratuito aos entregadores.
Além disso, a empresa informou ter aplicado cerca de 1,6 mil sanções contra clientes e estabelecimentos no período analisado, após ocorrências de violência ou violações das regras da plataforma.
Por sua vez, a 99 Food afirma adotar tolerância zero para discriminação, violência e ofensas. Para isso, a empresa mantém uma Central de Segurança 24 horas para receber denúncias e oferecer acolhimento.
Depois do registro, uma equipe especializada apura cada caso. Dependendo da ocorrência, o trabalhador também pode receber assistência médica e psicológica por meio do seguro da plataforma.

