
A construção de uma linha de transmissão de energia entre o Paraná e São Paulo revelou 2.655 fósseis de animais e plantas que viveram há centenas de milhões de anos, antes dos dinossauros. As equipes encontraram o material entre abril de 2025 e janeiro de 2026, durante as obras da Linha de Transmissão Ananaí 500 kV Ponta Grossa-Assis, da TAESA. Agora, a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) vai receber, preservar, catalogar e estudar o acervo.
Escavações revelaram vestígios raros
Os trabalhadores encontraram a maior parte dos fósseis durante as escavações para instalar torres da linha de transmissão. A obra tem 275 quilômetros de extensão, passa por 13 municípios e cruza cinco formações geológicas conhecidas pelo alto potencial de preservação de fósseis.
Por isso, o empreendimento contou com acompanhamento técnico. Enquanto as equipes avançavam com a construção, especialistas monitoravam o solo e orientavam os trabalhadores. Assim, a obra abriu espaço para a infraestrutura e, ao mesmo tempo, revelou uma parte profunda da história da Terra.
Além disso, o achado mostra a importância da chamada paleontologia preventiva. Esse trabalho evita que fósseis se percam durante grandes obras. Na prática, ele transforma escavações comuns em oportunidades científicas. O chão, que parecia apenas caminho para torres e cabos, guardava um arquivo de milhões de anos.
Fósseis ajudam a contar a história do planeta
Entre os materiais encontrados estão trilobitas, braquiópodes, moluscos bivalves, peixes, gastrópodes, tentaculites e fragmentos de plantas primitivas. As equipes também identificaram marcas de bioturbação, que são registros deixados por organismos no solo há milhões de anos.
Segundo pesquisadores, os fósseis ajudam a reconstruir ambientes marinhos e terrestres dos períodos Devoniano e Permiano. O primeiro remonta a cerca de 390 milhões de anos. Já o segundo ocorreu há aproximadamente 270 milhões de anos.
Com isso, o material ajuda a explicar como era a vida em regiões que hoje estão em terra firme. Em outras palavras, os fósseis mostram que áreas atuais do Paraná já abrigaram ambientes muito diferentes dos que conhecemos. Algumas partes indicam presença de vida marinha. Outras apontam mudanças ambientais que ocorreram muito antes da presença humana.
Acervo ficará sob guarda da UEPG
A UEPG vai receber todo o material após a fase final de catalogação. Em seguida, a universidade deverá registrar, numerar e acondicionar os fósseis em coleções científicas. Dessa forma, pesquisadores poderão estudar as peças com mais segurança e organização.
Além disso, a instituição poderá usar parte do acervo em ações educativas e de divulgação científica. Essa etapa aproxima a população da pesquisa e ajuda a transformar um achado técnico em conhecimento público.
A entrega também será comunicada à Agência Nacional de Mineração (ANM), como prevê a legislação brasileira. A medida garante a proteção do patrimônio paleontológico e reforça a responsabilidade de preservar esses registros.
Projeto levou informação às comunidades
O trabalho também saiu do canteiro de obras. O projeto promoveu ações de educação patrimonial em escolas, museus e prefeituras dos municípios por onde passa a linha de transmissão. Além disso, cerca de 200 trabalhadores receberam treinamento para reconhecer possíveis vestígios fossilíferos durante as escavações.
Assim, a descoberta ganhou alcance social. Os trabalhadores não apenas construíram uma linha de energia. Eles também ajudaram a identificar peças que contam uma história muito mais antiga que qualquer cidade, estrada ou obra humana.
No fim, a construção deixou um legado duplo. De um lado, avança a infraestrutura energética. De outro, entrega à ciência um acervo raro sobre a vida que existia no planeta há centenas de milhões de anos. Em meio a máquinas, torres e concreto, o passado apareceu inteiro, silencioso e teimoso, como quem esperou eras para ser ouvido.

